Julio se distanciou da igreja o mais rápido que pôde, suas forças foram se recuperando a medida que se afastava e sua mente ficou mais clara, começou a perceber as aberrações mas não teve medo, nada nele ou nelas era muito diferente e elas o tomavam como mais um. Esta “visão privilegiada” também o fez não passar pela praça do lago, algo lá fazia suas entranhas arderem como que feitas de pura lava, não gostaria de chegar mais perto que um quarteirão de lá.
Sentira várias pessoas vivas através das paredes dos prédios, sabia que estava sendo vigiado por pelo menos três atiradores e que seu dom telepático fora de grande ajuda para não levar um tiro. Fora isso não sabia o que fazer, não sentia fome, sono, cansaço, nada. Sua humanidade não seria testada mais, seu corpo ou a alma que se recusava a deixá-lo era auto-suficiente.
As noites eram piores, a escuridão que se abatia em alguns pontos da cidade era a mais pura treva, ouvia ruídos, grunhidos, gritos desumanos, e alguns últimos gritos dos que ainda eram humanos, vultos rápidos e ofegantes passavam ao seu lado e sentia todo tipo de cheiro, suor, sangue, fezes, urina, pêlos, pólvora e mais sangue. Era como ser uma daquelas câmeras amadoras que captam a tragédia de dentro de seu núcleo, a que filma o atentado suicida a poucos metros ou que flagra a rebelião de uma janela prestes a ser estilhaçada por granadas, não era confortante ver tudo isso de perto, mas sabia que era bem melhor do que partilhar da visão do outro lado, a visão das vitimas.
Todo ser vivo morre sozinho, não há nada mais certo que a morte e nada mais desesperador do que a certeza da solidão na hora da sua chegada. O que fizemos, não fizemos, pensamos ou não pensamos acaba, resta só a memória na mente daqueles que ficam vivos. O fim só é o fim para os que não acreditam em nada além da morte, cada um dos que acredita no paraíso enfrenta seu próprio julgamento e vai para o céu ou inferno das suas crenças.
Um comentário:
Os textos mais curtos são os que mais gosto!
Dá para dar uma "poetisada" sem ficar brega, e dá vontade de saber o que vem à seguir...
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