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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 3 - It's The End Of The World As We Know It

O parque era movimentado, geralmente, mas naquela tarde estava vazio, ninguém mais andava por seus caminhos pavimentados, não havia crianças no playground, nem pessoas levando seus pequenos cachorros para passear ou grandes cachorros dando uma volta com seus donos, o dia estava claro e morno, uma brisa leve anunciava a tempestade, talvez este o motivo do relativo abandono do parque.

De um canto ouviu-se um farfalhar de asas, e os patos que estavam no lago voaram, em bando, davam duas voltas no parque e voltavam, sempre, todos os dias de suas vidas, hoje não, saíram e foram embora, em menos de cinco minutos eram apenas pontos negros no céu azul-acinzentado daquele fim de tarde de verão. O vento brincou, lambeu o solo e como que movidas por uma música que só ela ouviam, as folhas dançaram, rodopiaram, fizeram evoluções e por fim se deitaram novamente, exaustas. Em alguns pontos do lago que era raso, mas extenso, pequenas ondulações denunciavam a localização das tartarugas que ali viviam, um bom observador poderia notar seus focinhos para fora d’água, olhando para cima, como nadadoras soberbas e cheia de orgulho, sem se importarem com o que se passava abaixo, assim como várias pessoas o fazem no dia a dia. Um cachorro latiu, uma pomba rulhou, o sinal da escola tocou, e todo o silencio foi tomado pelo ruído característico das crianças correndo para casa, era o último dia de aula, mas no outro dia não haveria férias...

Muitas cruzaram o parque, outras tomavam a direção oposta, algumas paravam e se sentavam em algum banco esperando os pais, ou trocando figurinhas com os amigos. Em menos de dez minutos o silencio voltou, e permaneceu, a luz morna do sol dava uma sensação de moleza e aconchego.

Os patos não voltaram.

“O tempo é estranho” pensou o único homem na praça, “é estranho como são estranhos os tempos de agora, estranho como conseguimos deixar tudo nesse ponto de agora, nesse exato dia de agora, o último dia...”

Sentado num banco de cimento, o homem que já tivera conforto maior, notou a aproximação da mulher, mas fingiu não ter notado, a indiferença e a manipulação sempre foram seus maiores passatempos.

- Já faz muito tempo, não faz?

A mulher se aproximou do banco e sentou, sua pele era alva e seus olhos quentes, quentes a ponto de sentirmos toda a força de sua alma.

- Veio passear, velha mãe? Péssimo timing, as coisas estão ficando bem feias aqui para essas bandas...

O homem se virou e seus olhos vazios e frios não puderam olhar diretamente a mulher por muito tempo, a simples percepção da condição dos abençoados fazia doer todo seu corpo, como se o mesmo se lembrasse deste sentimento perdido, perdido pelos incontáveis anos de exílio, perdidos na esperança do contrário, perdido pelo capricho, pelo sonho da predileção.

- É necessário que estejamos aqui, você principalmente, não é esse o dia que sempre esteve esperando?

- De certa forma sim, mas ainda está muito quieto para o meu gosto – ele se afastou um pouco, a luz da senhora começou a doer-lhe a pele – ele vem?

- Pode contar com isso, mas ainda não é o fim, meu filho me disse isso, temos que dar todas as chances aos que ainda estão vivos, os últimos momentos são os que mais contam, você sabe disso.

- Mais do que ninguém, mais do que ninguém...

Ficaram sentados, conversando o que a situação permitia conversar, vez ou outra relembrando coisas do passado, é o que as pessoas fazem, relembram coisas em comum quando se encontram, mesmo que separadas por milênios de convivência mútua, ou existência contígua, e mesmo que já não se considerem exatamente “pessoas”.

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