- Seu Marcos, o braço tá doendo? quer tomar um analgésico?
- Aproveita e me dá um anti térmico pq eu to queimando de febre, deve ser alguma infecção.
- Eu não quero parecer louco, mas acho que sei o que está acontecendo, já vi isso um zilhão de vezes e não posso estar enganado, dêem uma olhada – foi zapeando os canais da TV que mostravam cenas e mais cenas de completa histeria em vários locais do mundo, pessoas que deveriam estar mortas, ou no mínimo se contorcendo de dor pelas múltiplas lacerações, se arrastavam atrás de pessoas que corriam desgovernadas, carros em chamas, a polícia atirando para todos os lados. – não quero falar, mas vocês sabem o que estou pensando. Fabiano se levantou e foi até a cozinha pegar uma bolsa de gelo e uma garrafa de água.
- Zumbis, você está pensando em zumbis Fá, e eu acharia que você está louco se não estivesse vendo as mesmas cenas que você. Mas não é possível, não pode ser possível
- O fato de ser possível ou não, não parece impedir a Dona Dolores, de andar por ai mesmo com metade da cabeça amassada – Fabiano apontou pela janela da cozinha o quintal vizinho, uma mulher de meia idade vagava catatônica pelo terreno, como se procurasse algo perdido, ao se virar Marcos e Ana notaram o formato achatado que a metade esquerda de sua cabeça havia adquirido.
- Eu vou arrastar alguns móveis para bloquear as janelas, a gente vai subir e ficar no segundo andar, precisamos desligar todas as luzes, ta escurecendo e não acho uma boa idéia chamar atenção desnecessária pra cá.
Ouviram um barulho no banheiro do térreo, vidros quebrados, a porta estava fechada e Fabiano a trancou por fora, guinchos e silvos agudos vinham de dentro.
- É melhor irmos rápido – disse Marcos – Ana, pega o cooler azul e coloca algumas coisas nele com gelo, vamos levar algo para comer pra cima, conseguiu falar denovo com sua mãe?
- Ainda não pai, diz que todas as linhas estão ocupadas – Ela se dirigiu a dispensa – Fá, Fá, vem rápido aqui – gritou.
- Não grita Ana, não importa o que vej.... – ele viu.
A dispensa possuía duas janelas basculantes a cerca de dois metros de altura, tinham por volta de vinte centímetros de altura e tomavam toda a extensão da parede de um metro e meio, e estavam cobertas de mãos, que se moviam e batiam no vidro.
- Vamos, vamos, não podemos demorar mais – se dirigiu a Marcos – o senhor ainda tem aquele machado? Aquele que usou pra me botar medo quando vim primeira vez aqui.
- Tenho, mas tá la no quartinho dos fundos, por quê?
- Acho que vou ter que destruir sua escada, para nossa segurança. – Fabiano olhou para o sogro como se pedisse aprovação.
- Aparentemente você é o expert aqui, faça o que for necessário, eu vou subir com a Ana, a escada de metal está ai na dispensa, se você for sair vai rápido, antes que todos os vizinhos resolvam fazer uma visita noturna.
Fabiano abriu a porta rapidamente e foi até o quartinho dos fundos, o muro era alto e a única parte problemática era a divisa com os vizinhos que era feita com uma cerquinha de madeira, mas não haviam ninguém no quintal ao lado, ele chegou o pequeno cômodo de dois metros quadrados com telhado de amianto e pegou o machado, voltou correndo e por pouco não foi visto por um dos vizinhos que entrava pelo corredor lateral da casa vizinha.
A escada deu mais trabalho do que imaginava, mas após quase dez minutos de esforço, Fabiano conseguiu separar o degrau mais alto do andar superior da casa, armou a escada de metal e subiu, recolhendo-a logo em seguida, estavam protegidos pela noite, e podiam dizer graças a isso.
Marcos estava com um olhar delirante e lhe deu uma pistola calibre 38.
- Se eu virar uma dessas coisas, e por um acaso ainda estiverem aqui, acabe comigo, não deixe minha filha me ver nessa situação e tente achar a mãe dela.
- Sim senhor – farei o que for necessário – também tenho quem encontrar lá fora.
- Eu vou entrar no meu quarto e trancar a porta por dentro, estou levando um pouco de comida e água para a noite, se acontecer algo comigo, duvido que consiga sair de lá, se sair, sabe o que fazer.
- Sim senhor.
- Obrigado Fabiano, e não faça nada de errado com minha filha. – ele sorriu.
- Sim senhor, espero te ver pela manhã.
- Eu também Fabiano, eu também.
Marcos fechou a porta. Fabiano foi ao quarto de Ana, ela estava deitada, aparentemente a febre voltara e sua cabeça doía.
- O que você e meu pai estavam conversando?
- Vamos esperar ate amanhã Ana, aí eu te conto – ele a beijou com carinho – dorme um pouco, eu vou ficar de olho lá embaixo.
Fabiano ficou a noite toda acordado olhando pela janela, certa hora as luzes dos postes apagaram-se, Fabiano não sabia, mas uma ambulância batera em um poste não muito longe dali, seu irmão estava nela, quebrou o braço e tinha escoriações no corpo todo, mas fora o único a sobreviver, Luciano era o nome dele, e por enquanto ele vai ficar dentro da ambulância desacordado, até que os gemidos de seus outros três tripulantes o acorde
Pouco antes das luzes se apagarem, o vizinho da frente da casa de Ana chegou, ele possuía uma dessas grandes SUVs importadas onde cabiam várias pessoas. Fabiano sabia que ele trabalhava para o governo, só não sabia o que ele fazia, não até aquele momento.
O homem desceu de seu carro e falou algo para alguém que estava dentro dele, outros dois homens desceram, eram grandes como ele, estavam vestidos com uniformes do exército, as luzes do carro começaram a atrair a atenção de alguns zumbis que estavam nas casas, o homem entrou ela porta da frente e os outros cobriam sua retaguarda com um fuzil cada.
Fabiano ouviu gritos indistintos, parecia o homem chamando por alguém, ouviu dois tiros e os homens se viraram para a porta, tempo o suficiente para não ver uma das criaturas chegar pelo canto da garagem e lhe morder o pescoço, o outro atirou nos dois, ele sabia o que estava acontecendo. O homem careca e grande que era dono da casa saiu com ar desolado, o soldado que restara do lado de fora lhe fez uma pergunta, ele balançou a cabeça em negativa.
Os tiros atraíram mais ainda a atenção das criaturas, vindas de cima e de baixo da rua, cerca de vinte ou trinta deles cercavam a casa, os dois homens dispararam alguns tiros, todos na cabeça das criaturas e entraram no carro, atropelando-os. O descuido com o qual fugiam ou atropelavam zumbis por vingança, os fez passar reto por um cruzamento e acertarem em cheio uma ambulância que capotou duas vezes antes de se chocar com um poste antigo e romper os cabos de energia que iam para os bairros.
Ana acordou e perguntou o que era a barulheira, Fabiano a acalmou e pediu para a namorada voltar a dormir, quando olhou par fora, o soldado não estava mais no gramado da frente, a luz da lua apenas iluminava uma mancha de sangue onde seu corpo estivera, e ela brilhava estranhamente naquela noite de maus finais.