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domingo, 19 de dezembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 12 - Who wants to live forever.

Depois de vários dias de sol quente e tempo seco, uma fina chuva caiu, contínua como lágrimas de uma criança com dor. Na rua as criaturas ficavam inertes se molhando, ficavam apenas paradas, indiferentes ao chuvisco que virou temporal. A chuva deu uma trégua e Ricardo saiu em missão, e só voltaria perto do anoitecer, quando nem mesmo ele se aventurava a ficar fora da igreja. Ele buscava remédios para os sobreviventes, qualquer corte poderia ocasionar uma infecção que fugiria do controle em poucos dias. O ar amanhecia pesado e dependendo da quantidade de bestas que havia circulado a Matriz durante a noite, ele poderia até ser considerado venenoso.

A busca por remédios e bandagens não foi frutífera. Ricardo encontrou apenas duas drogarias em seu caminho, uma delas queimou até desmoronar, a outra havia sido saqueada anteriormente e nada utilizável sobrara em seu interior. Continuou andando e procurando outra farmácia mas já pensava em voltar quando ouviu um trovão distante.

A chuva o pegou e ele buscou abrigo em uma construção abandonada, entrou rapidamente saltando o muro e tomando cuidado para não atrair atenção desnecessária. Era uma salão de pé direito alto e ao lado da parede havia uma escada que levava ao segundo piso, uma casa em construção, as paredes sem reboque mostravam canos instalados e provavelmente haveria água, havia. Ricardo encheu seus dois cantis e foi até uma das janelas observar a rua deserta molhada pela chuva e que exalava o cheiro que tanto gostava, asfalto molhado, asfalto novo cheirava melhor, aquele era um bairro novo e poucos carros passaram por aquele pedaço antes dos acontecimentos apocalípticos que transformaram Ricardo em um Mad Max da cidade.

De onde observava ele podia ver a abóbada dourada da Matriz ao longe, via também onde a avenida na qual andara se encontrava com a Avenida Beira-Rio cerca de um quilometro abaixo. Seu palpite fora certo, não havia encontrado ninguém, vivo ou morto, por aquelas bandas, só ele contemplava o festival das rajadas de vento coreografando a chuva que se chocava com o solo gerando respingos que mais pareciam saias inversas de bailarina e que se desfaziam, quase que instantaneamente, em pequenas nuvens de vapor. Por um segundo pensou estar em seu próprio quarto observando a chuva, o que fazia com certa freqüência, mas um tiro de rifle o fez voltar a si, mas não foi o barulho que o despertou, e sim os estilhaços da parede perto de sua cabeça. Onde a bala disparada foi se alojar.

Com um movimento rápido e involuntário Ricardo se jogou ao chão e sacou os seus revolveres, nunca os havia incomodado em seus coldres improvisados, geralmente usava suas duas laminas para dar conta de uma ou outra aberração, a situação estranha de se tornar alvo exigia novas táticas.

Mais dois tiros foram disparados e Ricardo teve seu segundo palpite do dia, correto como o primeiro, os tiros vinham de um anglo quase a quarenta e cinco graus a direita da construção, e isto salvara sua vida já que o sol se punha atrás de onde estava e com certeza atrapalhara o atirador. Com muito cuidado ele se dirigiu ao banheiro, ou o que nunca se tornaria propriamente um, e olhou pela pequena abertura da janela, tinha certeza que não seria visto facilmente ali. De seu “ponto seguro” observou uma fileira de pequenos prédios de apartamentos, no terceiro deles, da direita para a esquerda, uma janela estava aberta, no terceiro andar. Não havia mais que trezentos metros entre sua janela e a janela de onde supostamente o tiro partira. E não havia como se aproximar do outro prédio sem ser visto.

Olhando em volta Ricardo viu sacos rasgados e um pedaço razoável do que parecia ser um saco velho de argamassa, ele o pegou e com um estilhaço de tijolo escreveu “Sou Amigo”, se dirigiu novamente a porta da sacada na qual quase fora alvejado e colocou o papel escrito para fora, rapidamente recolheu sua mão, outro disparo. desta vez no chão, longe do papel, o que só podia significar duas coisas, ou o atirador era inexperiente no manuseio do rifle e em conseqüência inexperiente em matar, ou possuía algum problema de visão, Ricardo palpitou na primeira, esse foi seu único palpite errado do dia. Mais três tiros foram disparados nas paredes do sobrado. Ricardo empurrou um tijolo no vão da porta da sacada e o tiro veio, ao lado do tijolo.

O sol ainda descia e as trevas avançavam vindas do ouro lado da Terra, a cada sinal de movimento ou aparentemente nem sequer isso, um tiro era disparado, uma parte de reboco se soltava da parede e Ricardo contava as balas, já estavam em vinte, ou seriam vinte e uma? Não se preocupava muito, os únicos pensamentos que vinham a sua cabeça quando ouvia um tiro e continuava pensando eram “mais uma desperdiçada”. O sol se pôs totalmente e só quando tudo ficou escuro que Ricardo se deu conta do perigo em que estava, passar a noite dentro das paredes sagradas da igreja era difícil, toda a gritaria das gralhas do inferno do lado de fora tornava uma noite de sono não mais prazerosa que uma extração de dente sem anestesia. Como seria então passar a noite em um local mundano, sem nenhum tipo de barreira protetora segurando os monstros do lado de fora? Ele descobriria em breve, os gritos desumanos e o farfalhar de asas que se aproximava não podiam ser ignorados.

O atirador começou então o que muitas pessoas chamam de acesso de fúria, pela cabeça de Ricardo a alcunha “berserk” passou em cor vermelho sangue. Seqüências rápidas de cinco tiros eram ouvidas e entre elas um intervalo de não mais de dois segundos, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco, quarenta, quarenta e cinco, não fosse o intervalo, Ricardo poderia até pensar que o atirador havia deixado o rifle de lado e disparava loucamente uma automática. Os tiros somados aos gritos dos monstros que ocasionalmente eram atingidos atraíram uma atenção mais que indesejada para a região onde se encontravam.

Ricardo estava estático encostado na parede ouvindo o que parecia ser uma salva de tiros de comemoração no conjunto de apartamentos, com cinco minutos desta trilha sonora de desespero os tiros cessaram, aparentemente as balas chegaram ao seu inevitável fim, e os gritos também pararam. Mais cinco minutos e o silencio foi tomando conta novamente da noite naquele bairro afastado e aparentemente sem vida. Um único tiro varou a noite e seu estampido foi seco e predizia morte, Ricardo sentiu uma dor muito forte na cabeça e caiu, as sombras também caíram sobre ele.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 11 - Under the Same Sun

A cidade estava silenciosa, não de um jeito pacifico, mas como se cada pedaço dela estivesse completamente morto, sem pássaros, sem movimento, sem nem mesmo uma das criaturas que há pouco cercavam a igreja.

No parque o homem se aproximou do banco onde sua mãe e seu dito rival conversavam, não havia maldade naquele lugar e ele já sabia q assim o encontraria, a idéia era má, a mente que a cultivara durante todos estes anos era sem duvida maligna, e não deixava de dar razão ao caído.

- Os homens são maus – disse se aproximando e pegando carinhosamente a mão de sua mãe - a raça humana tem ainda milênios para que encontrem realmente seu potencial, mas isso não significa que queimá-los todos em rios de lava e espetos possa resolver alguma coisa.

- Um minuto – interferiu o homem sentado – sei como você continua o sermão, “existe bondade, existem aqueles pelos quais vale à pena lutar e deixar minha idéia de lado” – ele continuou – não posso lhe tirar a razão, tanto quanto você não pode tirar a minha. O que me enerva é que a maioria não corresponde às expectativas Dele... Santo Deus... Eles te mataram te penduraram como um animal e você ainda os ama.

- Eu estar aqui é a prova de que eles não me mataram, então não tenho motivo para raiva.

- Bom – o homem se levantou e se dirigiu ou outro – acho que posso fazer isso hoje, venha cá, aperte minha mão, já posso pisar no solo com meus pés, e provavelmente posso tocá-lo, não existem inocentes nem culpados, apenas réus.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 10 - One

Um animal acuado não pensa, reage, embora todos os animais sejam considerados sem inteligência, o homem, suposto dono do cérebro mais avançado do planeta não deixa de ser diferente em sua resposta quando amedrontado ou coagido.

Ricardo não se abalara nem um pouco quando o mundo em que vivia se tornou o inferno, apenas mudou sua rotina, o que era antes um vai e vem entre o trabalho e sua casa, diversas incursões no mundo virtual onde derrotava monstros nas horas vagas, se tornou seu próprio videogame. Não era de se espantar que o jovem anti-social gostasse da situação, nem que os muitos que chegaram à igreja após ele estivessem em choque diante a crueza de seus atos e palavras, não era mocinho, pensou ser um dia, mas descobriu que não gostava do papel.

Gustavo nunca saía nas excursões para arrecadar alimento, cada vez mais eles iam mais longe, pois só se aproveitava os enlatados e bebidas engarrafadas não refrigeradas dos mercados e mercearias da cidade, Gustavo nunca estava por perto quando os homens e mulheres se reuniam para sortear quem ia sair, todas as vagas eram sorteadas no palito, exceto a de Ricardo que era presença garantida nos grupos de busca por alimentos e eventualmente sobreviventes, e eles se tornaram tão escassos quanto a comida assim que avançaram algum tempo de inferno na terra.

A última leva dos sobreviventes chegara ao final do que seria novembro, pelas contas do padre, eram doze, entre eles duas crianças, seus pais não estavam no grupo e haviam sido recolhidas de uma casa antes infestada, se esconderam no sótão, puxaram a escada e por sorte foram encontradas quando uma das mulheres do grupo adentrou a residência em busca de água. As crianças estavam sem comer a quase três dias e não tinham forças para chamar, O que as ajudou, ironicamente, foi um velho com um braço pela metade e outro mostrando o osso dos dedos de tanto arranhar a parede, ele olhava fixamente a porta do sótão por onde as crianças entraram e foi presa fácil para a mulher que estourou seus miolos com a arma que dizia ser de seu finado marido.

Com o barulho do tiro a menina abriu o sótão e pareceu não acreditar quando viu uma pessoa normal andando em sua casa, imediatamente começou a chorar ao reconhecer seu velho avô caído com metade da cabeça espalhada no chão, depois de muito custo ela entendeu que aquilo fora necessário e desceu, trazendo consigo seu pequeno irmão de não mais de seis anos, desacordado e muito fraco.

Segundo o relato de um dos jovens do grupo eles andaram por dois dias ate chegarem a um supermercado, onde ficaram por quase um mês e por fim foram encontrados pelos membros da equipe de busca, todos estavam escondidos em uma câmara fria e que oferecera grande proteção por todo o tempo, e a comida não era um problema, apesar de um deles ter sido apanhado enquanto “fazia as compras” há cerca de uma semana atrás como informou a mulher mais velha, Joana era seu nome, o homem apanhado era seu marido.

A sobrevivência se tornou o negocio de alguns pelo que puderam perceber, havia um sindico de prédio em algum lugar do centro da cidade, provavelmente no edifício Avenida, que se valera das grandes portas de aço dos anos 50 instaladas em seu prédio para transformar o condomínio em um stronghold, inclusive cobrando pagamento em serviços por sua “hospitalidade”. O canal de rádio que utilizavam era freqüentemente o canal de divulgação do local mais seguro na cidade, segundo o sindico, Michael se refugiou na igreja dois meses após viver no condomínio, o sindico não se opunha a abrir os portões para quem quisesse partir, mas enfatizava que nunca mais as aceitaria.

Havia relatos de outras comunidades sobreviventes e ainda mais de atiradores solitários que conseguiram se virar por todo esse tempo, alguns deles eram avistados andando tranqüilamente pela praça abatendo as aberrações que cruzavam seu caminho, outros ofereciam seus serviços de escolta para busca de alimentos, aparentemente a situação tomara a dimensão de uma selva onde os monstros eram animais selvagens e os sobreviventes apenas tribos que vez ou outra desafiavam a sorte e se aventuravam em busca de comida e melhores condições de sobrevivência.

De certa forma era confortante saber que a humanidade não dependeria exclusivamente do grupo da igreja, mas aos olhos de Ricardo, quando a comida começasse a rarear e os esconderijos se tornassem mais raros e menos seguros uma insurreição seria instalada e ele tinha certeza, lutar contra aberrações se tornaria a coisa mais fácil do mundo quando começassem a ter que brigar com os vivos.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 9 - When you were young

Ricardo se dirigiu ao aposento que agora chamava de quarto, não era nem aconchegante nem estranho, era algo exatamente no meio disso, não queria se sentir muito a vontade, mas seu lado caseiro deu toques de seu antigo quarto naquele cubículo onde antes se guardava os materiais de limpeza da igreja.

A cama era desmontável, o próprio padre havia lhe dado, disse ter recebido muitos viajantes da igreja e usado demais a pobre armação de metal que sustentava um leve e fino colchão de espuma densa. Como travesseiro Ricardo enchera uma de suas camisetas com restos de tecido de algumas batas e roupas de doação que se encontravam na igreja quando ele ali chegou, não era como seu travesseiro que levava em todas as viagens, mas, o travesseiro era seu menor problema no quesito sono tranqüilo, nem demônios e abominações lhe atrapalhavam o sono, não mais, o problema era Bianca, que dormia a menos de vinte metros dele, na cama de Gustavo.

Três dias após a partida de Julio, Ricardo estava limpando uns dos fuzis e sentiu alguém a suas costas, era Bianca.

- Não consegui te agradecer formalmente por ter me salvado, mas também entendi o que você me disse naquele dia, não sei o que posso ter feito para que preferisse me ver como uma dessas coisas – ela se sentou – tanta coisa aconteceu comigo desde que estávamos juntos que nem sei mais qual dos dois deu por acabado nosso namoro, não sei se brigamos ou se terminamos numa boa, só sei que nada mais foi como naqueles três anos em que fomos um casal.

- Não há necessidade para isso Bianca, passou, se você não se lembra o que aconteceu, não serei eu a te lembrar, eu mesmo tenho tentado esquecer isso há tempos, sem sucesso.

- Em todo caso – ela se aproximou e beijou o rosto de Ricardo – obrigado por ter me trazido pra cá, e não ter feito o que queria ter feito.

- Eu não fiz pois a situação se apresentou adversa as minhas expectativas, mas teria feito se você fosse uma dessas coisas.

- Eu sei que sim, e eu lhe seria grata da mesma maneira.

Ela se levantou e foi para perto das mulheres que enchiam os pentes das armas.

Ricardo levantou a cabeça e pegou Gustavo o encarando, algo sombrio passou pelos seus olhos, algo que Ricardo nunca tinha visto direcionado a ele. O homem forte e atlético que namorava sua ex sentia-se ameaçado, Ricardo não pode segurar um risinho no canto dos lábios.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 8 - Imitation Of Life

Julio se distanciou da igreja o mais rápido que pôde, suas forças foram se recuperando a medida que se afastava e sua mente ficou mais clara, começou a perceber as aberrações mas não teve medo, nada nele ou nelas era muito diferente e elas o tomavam como mais um. Esta “visão privilegiada” também o fez não passar pela praça do lago, algo lá fazia suas entranhas arderem como que feitas de pura lava, não gostaria de chegar mais perto que um quarteirão de lá.

Sentira várias pessoas vivas através das paredes dos prédios, sabia que estava sendo vigiado por pelo menos três atiradores e que seu dom telepático fora de grande ajuda para não levar um tiro. Fora isso não sabia o que fazer, não sentia fome, sono, cansaço, nada. Sua humanidade não seria testada mais, seu corpo ou a alma que se recusava a deixá-lo era auto-suficiente.

As noites eram piores, a escuridão que se abatia em alguns pontos da cidade era a mais pura treva, ouvia ruídos, grunhidos, gritos desumanos, e alguns últimos gritos dos que ainda eram humanos, vultos rápidos e ofegantes passavam ao seu lado e sentia todo tipo de cheiro, suor, sangue, fezes, urina, pêlos, pólvora e mais sangue. Era como ser uma daquelas câmeras amadoras que captam a tragédia de dentro de seu núcleo, a que filma o atentado suicida a poucos metros ou que flagra a rebelião de uma janela prestes a ser estilhaçada por granadas, não era confortante ver tudo isso de perto, mas sabia que era bem melhor do que partilhar da visão do outro lado, a visão das vitimas.

Todo ser vivo morre sozinho, não há nada mais certo que a morte e nada mais desesperador do que a certeza da solidão na hora da sua chegada. O que fizemos, não fizemos, pensamos ou não pensamos acaba, resta só a memória na mente daqueles que ficam vivos. O fim só é o fim para os que não acreditam em nada além da morte, cada um dos que acredita no paraíso enfrenta seu próprio julgamento e vai para o céu ou inferno das suas crenças.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 7 - Unforgiven II

“Essa não é uma história de terror...

... Muito menos um sonho...

Não pode ser já que estou vivo, contra minha vontade, e sei o que acontece comigo, ao fechar meus olhos e abri-los novamente é a mesma imagem embaçada a minha frente, os óculos escuros que uso não interferem em nada a minha visão. Não tenho olhos para enxergar e eles são apenas para o conforto de quem me olha de frente, enxergo com algo mais sensorial que físico, enxergo com o tal olho da mente que muitos veneram.

Minha dor me corrói como ácido e queima todo o interior do meu corpo, meus pulsos não param de pingar sangue, e fico imaginando até quando terei sangue para isso...

Neste momento em qualquer sonho ou pesadelo as pessoas acordam, caem em um precipício e se vêem assustadas em suas camas, sãs e salvas. Nos filmes há o recurso do ultimo segundo, quando tudo aprece perdido alguém aparece e te salva, isso claro se você for o protagonista, mas eu nunca fui nem o figurante, se alguma vez tivesse sido algo do tipo com certeza não teria tentado me matar...

É por isso que as pessoas se matam, porque ninguém no mundo sentirá sua falta, ninguém tentará impedi-las, elas estão sozinhas, sozinhas e sem nada pra fazer em vida, a morte tem outro rosto quando a gente se encontra nesta situação.”

Julio se levantou e com grande dificuldade abriu a porta, todos olharam em sua direção, estavam cochichando e Julio sabia o assunto, claro que sabia, agora sabia de tudo.

- Padre – disse olhando o velho homem que o conhecia tão bem – não vejo beneficio pra ninguém em eu ficar aqui, vou embora, não quero incomodar nem gerar desconforto, além disso, a dor está insuportável, agora pouco estava delirando, estarei seguro lá fora, mais do que vocês aqui dentro comigo.

Ricardo assistiu Julio saindo da Igreja, o padre ficou arrasado.

- E lá se vai outra alma que não pude salvar.

Ricardo interveio.

- Padre, acho que gostaria de saber que não fiz o que havia me disposto a fazer, por fim, alguma coisa aqui dentro ainda vive, algo que achei ter morrido há algum tempo.

- Eu sei filho, eu havia notado isso antes mesmo de você. Mas o trabalho do sacerdote é salvar a todos, e existe alguma razão para aquele garoto estar vivo ainda, por mais que os tempos sejam esses, uma pessoa na situação dele pode fazer toda a diferença na hora do juízo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - capitulo 6 - Coffee and TV

Não demoraram a chegar a igreja, nem podiam, o caminho não mostrou dificuldades e tiveram que parar duas vezes, nenhuma novidade, uma mulher que devia ter sido linda quando viva mas agora arrastava uma das pernas e tinha um do braços preso ao corpo apenas por um dos tendões e seu cachorro, um poodle sem pêlos e uma boca grande demais para seu diminuto tamanho, mortos (novamente) com um simples gingado da espada e um grito de Bianca ao ver o que seu ex-namorado fazia com as duas laminas afiadas.

Entraram e logo Ricardo sentiu que todos estavam ali, sentiu também duas pessoas a mais. Viu uma garotinha sentada em um dos bancos amparada por Rebecca e também viu a pobre alma que encontrara mais cedo, padre Josué conversava com o homem.

Notou uma comoção e viu Gustavo vir correndo em sua direção, passou por ele e abraçou Bianca forte demais, ele a beijou.

- Graças a Deus – disse – graças a Deus que você está bem meu amor.

- A Deus e ao Ricardo, mas não a você Gustavo – Bianca estava desconcertada – se estava vivo, se estava aqui junto com ele, porque não foi me salvar?

- Não sabia que ele ia te salvar..

- E não ia, que isso fique bem claro – Ricardo interrompeu – meu objetivo era outro, esbarrei nela por coincidência.

- Se soubesse que havia alguma chance de você estar viva – continuou Gustavo - não deixaria passar essa oportunidade de te ajudar.

Ricardo notou uma onda de entendimento repentino em Gustavo, ele olhou para Bianca seus olhos encontraram apenas um olhar de desprezo.

- Não vai me dizer que ele é O Ricardo, o próprio, o que sua mãe e seu pai tanto falavam. Agora entendo, e não acredito que tenha sido coincidência ele ter te encontrado.

- Já falei que meu interesse naquele bairro era outro, não devo explicações a ninguém muito menos a você, se contente que eu trouxe sua namoradinha viva e ilesa, além do mais isso aqui não é nenhuma novelinha das sete. – Ricardo se dirigiu ao local onde o padre conversava com Julio, deixou que os pombinhos se entendessem, ela não era sua responsabilidade mais, novamente a história se repetia.

Ricardo viu que o homem estava usando óculos escuros, mas que de alguma maneira ele estava olhando fixamente os seus.

- Eu te vi mais cedo Ricardo, perto do condomínio onde morava.

- Eu sei, me lembrei de você no momento que vi, sorte nossa eu não possuir uma arma de fogo, senão creio que não estaríamos conversando agora.

- Pelo que aprendi hoje, provavelmente não faria muita diferença você ter ou não uma arma de fogo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Paraiso Perdido - Capítulo 5 - Sympathy for the devil

- É incrível não é? – O homem no banco da praça parecia extasiado.

- O que é incrível? – Não compartilhando de sua alegria a mulher apenas o olhava, tentando se lembrar quando fora a ultima vez que o havia visto sorrir.

- Tudo isso, toda essa nossa história, por muito tempo não nos vimos, há muito mais tempo ainda não o vejo, e hoje, neste dia sem nada demais nos encontraremos novamente, neste dia sem graça meu futuro será decidido, meu e de todos os que vivem aqui.

Ela se levantou e caminhou um pouco para perto do lago, na metade do caminho se irou:

- Você não entendeu nada ainda não é? – seu olhar era carinhoso, como o olhar das mães – todo este tempo e ainda não entendeu. Não sei se tenho pena ou fico aliviada por isso.

- Sem sermões, por favor. Volte aqui, sente-se do meu lado hoje é meu dia, não tem como nada sair errado, quando seu filho chegar nós faremos o que precisa ser feito, meu ponto de vista será confirmado e só gostarei de receber as desculpas por todo esse inferno que passei. Toda a calúnia, todo o ódio que a mim é dirigido, quando eu, na minha humilde subserviência continuo a fazer o meu trabalho.

- Humilde você não é, não mesmo, este é um dos motivos de eu ter vindo, não perderia por nada o SEU pedido de perdão, quem sabe vocês acabam se entendendo e a coisa melhora para todo mundo, essa é minha esperança.

O homem continuava sentado, como um trabalhador exausto que recebia seu descanso tardio, a mulher continuou em pé o fitando, era tão bonito que lembrava seu filho, gostava dele, do que ele já fora, antes mesmo de aceitar a vontade do pai de seu filho, e de ela própria se ver no meio de assuntos tão sérios. Incrível era, com certeza, incrível como a devoção absoluta gera o fanatismo e o fanatismo gera doutrinas e idéias tão divergentes das originais, não era isso que salvaria o mundo, não uma crença que se perdeu há muitos anos nas mãos de tantos que dela se aproveitaram.

Por fim ela se sentou ao lado do homem louro que poderia ser gêmeo de seu filho não fossem as cores contrárias de seus olhos, pele e cabelos, a fisionomia era a mesma, tão serena e tão bonita, tão cheia de mistérios que ela mesma nunca decifrara por completo. Pensando em seu filho sentiu um calor no coração, e olhou para a direita, na outra extremidade do parque ela o viu, o homem louro também, seu sorriso esmoreceu um pouco, mas depois se alargou, não havia um que não se sentisse alegre na sua presença.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 4 - Times Like These

Surpresas apenas pelo motivo de surpreender não agradavam nem um pouco Ricardo, ele traçou um plano lógico e botou em prática, com Bianca lhe acompanhando achou sensato partirem imediatamente, não gostaria de arriscar uma noite ali. Saíram com o sol a caminho de seu leito, o relógio de Bianca marcava 4:15, mas conhecendo o hábito inexplicável de adiantar o relógio que sua ex-namorada possuía, Ricardo calculou serem por volta das quatro, good, very good indeed , como não hesitaria em dizer na sala de aula de inglês.

Seguiram pela rua que ele já conhecia, cada ponto cego, cada reentrância de muro, chegaram rápido na avenida, embora tenham ouvido alguns barulhos muito estranhos vindo de algumas casas, e em algumas delas terem visto seus habitantes rondando os quintais, “procurando as chaves”... ele riu, esse ultimo pensamento lhe devolveu um pouco do humor seco que sempre possuiu. Teve certeza de ter visto um senhor numa janela gradeada, ele estava vivo, mas catatônico, seu olhos vazios e o corpo pendendo de um lado para ao outro, na área, logo em frente a janela, jaziam os corpos de um cachorro, uma senhora e uma moça, pouco mais nova que Bianca, todos com um buraco de bala na cabeça. A gente faz o que precisa ser feito, e agüenta as conseqüências de nossas ações..

Após chamarem o senhor catatônico por cerca de cinco minutos, oferecendo ajuda e abrigo, Ricardo decidiu abandoná-lo, não tinha tempo para esse tipo de coisa, mesmo que valesse a pena ter uma arma de fogo para “facilitar” a caminhada.

O ditado estava correto, a descida foi rápida, passando pela avenida, agora com a cabeça mais leve e sem a preocupação da subida, Ricardo pode ver várias coisas interessantes, a primeira foi uma moto, arriscou, sem gasolina, seguiram a pé então, conversaram pouco ou quase nada, o silencio de dois anos prevaleceu, não perguntaram sobre as respectivas famílias, não perguntaram nada, apenas seguiram um atrás do outro, como o homem de preto e o pistoleiro.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 3 - It's The End Of The World As We Know It

O parque era movimentado, geralmente, mas naquela tarde estava vazio, ninguém mais andava por seus caminhos pavimentados, não havia crianças no playground, nem pessoas levando seus pequenos cachorros para passear ou grandes cachorros dando uma volta com seus donos, o dia estava claro e morno, uma brisa leve anunciava a tempestade, talvez este o motivo do relativo abandono do parque.

De um canto ouviu-se um farfalhar de asas, e os patos que estavam no lago voaram, em bando, davam duas voltas no parque e voltavam, sempre, todos os dias de suas vidas, hoje não, saíram e foram embora, em menos de cinco minutos eram apenas pontos negros no céu azul-acinzentado daquele fim de tarde de verão. O vento brincou, lambeu o solo e como que movidas por uma música que só ela ouviam, as folhas dançaram, rodopiaram, fizeram evoluções e por fim se deitaram novamente, exaustas. Em alguns pontos do lago que era raso, mas extenso, pequenas ondulações denunciavam a localização das tartarugas que ali viviam, um bom observador poderia notar seus focinhos para fora d’água, olhando para cima, como nadadoras soberbas e cheia de orgulho, sem se importarem com o que se passava abaixo, assim como várias pessoas o fazem no dia a dia. Um cachorro latiu, uma pomba rulhou, o sinal da escola tocou, e todo o silencio foi tomado pelo ruído característico das crianças correndo para casa, era o último dia de aula, mas no outro dia não haveria férias...

Muitas cruzaram o parque, outras tomavam a direção oposta, algumas paravam e se sentavam em algum banco esperando os pais, ou trocando figurinhas com os amigos. Em menos de dez minutos o silencio voltou, e permaneceu, a luz morna do sol dava uma sensação de moleza e aconchego.

Os patos não voltaram.

“O tempo é estranho” pensou o único homem na praça, “é estranho como são estranhos os tempos de agora, estranho como conseguimos deixar tudo nesse ponto de agora, nesse exato dia de agora, o último dia...”

Sentado num banco de cimento, o homem que já tivera conforto maior, notou a aproximação da mulher, mas fingiu não ter notado, a indiferença e a manipulação sempre foram seus maiores passatempos.

- Já faz muito tempo, não faz?

A mulher se aproximou do banco e sentou, sua pele era alva e seus olhos quentes, quentes a ponto de sentirmos toda a força de sua alma.

- Veio passear, velha mãe? Péssimo timing, as coisas estão ficando bem feias aqui para essas bandas...

O homem se virou e seus olhos vazios e frios não puderam olhar diretamente a mulher por muito tempo, a simples percepção da condição dos abençoados fazia doer todo seu corpo, como se o mesmo se lembrasse deste sentimento perdido, perdido pelos incontáveis anos de exílio, perdidos na esperança do contrário, perdido pelo capricho, pelo sonho da predileção.

- É necessário que estejamos aqui, você principalmente, não é esse o dia que sempre esteve esperando?

- De certa forma sim, mas ainda está muito quieto para o meu gosto – ele se afastou um pouco, a luz da senhora começou a doer-lhe a pele – ele vem?

- Pode contar com isso, mas ainda não é o fim, meu filho me disse isso, temos que dar todas as chances aos que ainda estão vivos, os últimos momentos são os que mais contam, você sabe disso.

- Mais do que ninguém, mais do que ninguém...

Ficaram sentados, conversando o que a situação permitia conversar, vez ou outra relembrando coisas do passado, é o que as pessoas fazem, relembram coisas em comum quando se encontram, mesmo que separadas por milênios de convivência mútua, ou existência contígua, e mesmo que já não se considerem exatamente “pessoas”.

domingo, 7 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 2 - Mamma Said - Parte 2

O calçadão parecia perder a movimentação conforme avançava até a igreja, de onde estava já via sua cúpula de bronze, não se lembrava da ultima vez em que estivera ali, talvez na missa de sétimo dia da mãe? Talvez na da avó que o criara até os dezessete anos? Não se lembrava, era mais uma de suas memórias que havia se escondido. Percebeu que conforme se aproximava da igreja seus movimentos pareciam ficar cada vez mais rápidos, talvez a sua alma (embora de suicida) encontrasse alguma força perto da santidade da igreja, e se a mãe dissera sobre o céu e o inferno que dizer que existia mesmo um Deus e em conseqüência seu oposto...

- Pare onde está se for vivo e me entender! – Disse uma voz vinda de cima, de uma das torres que guardavam os sinos – pare agora ou eu atiro no meio da sua cabeça!

Ele parou, olhou para cima e percebeu uma mulher, sem saber com falou com ela.

“Não atire, eu estou com vários problemas de locomoção mas por favor não atire, não sou uma dessas coisas”

Marília estava em seu posto de vigília na torre e já colocava o dedo sobre o gatilho do rifle quando ouviu na mente estas palavras, ficou meio confusa, mas não pode atirar, o padre saberia, e se o homem pudesse entrar na igreja, talvez não fosse mesmo uma daquelas coisas.

Julio se aproximou do portão que divisava o território da igreja e parou por um instante, sabia que os suicidas não podem receber benção nem muito mesmo ser enterrados em cemitérios cristãos, mas ele ainda estava ali não, nunca soube de um suicida que andou com as próprias pernas para dentro de uma igreja. Atravessou o portão e sentiu a dor de estomago piorar, sua cabeça doía também e seus pulsos voltaram a verter sangue, poderia ficar ali, mas o castigo piorava, é claro. As portas se abriram e Julio viu um homem que já fora seu conselheiro, há muitos anos, quando a mãe ainda era viva e o trazia ali todos os domingos.

- Julio – disse o padre – Júlio, é você? Meu deus meu rapaz, há quanto tempo, o que aconteceu?

Mesmo sentido algo de estranho no rapaz, o padre se aproximou, colocou as mãos no ombro de Júlio e o forçou a encará-lo, quando sem opção ele retribuiu o olhar do padre, este viu o que havia de errado no garoto, e por um instante todo seu mundo perdeu a cor, para depois recuperá-la. Não se pode dizer se a fé do padre sofreu mais uma de suas constantes provas naquele momento, e Deus sabe que elas haviam sido várias nos últimos dias, mas olhar para Júlio, perceber o que ele era e vê-lo ali, dentro daquele terreno, disseram ao padre Josué que as coisas estavam realmente diferentes, a voz na sua cabeça dizia para aceitar o rapaz, talvez tentar segurá-lo ali, ele é neutro, não deixe-o desamparado senão perderá sua alma para sempre. E era difícil não ouvir a voz, principalmente suspeitando de quem ela era.

- João, Gustavo, venham me ajudar – gritou o padre para a igreja – tragam os óculos escuros que estão sobre minha mesa, e não se assustem com o que virem aqui

- Obrigado padre – disse Júlio entre as lancinantes pontadas de dor que varavam seu estomago como espadas flamejantes – mas acho que posso morrer de dor se entrar aí dentro.

- Acho que ninguém morre duas vezes Júlio – o padre o olhou com a compaixão que sempre demonstrara pelo garoto – nem mesmo nestes dias.

sábado, 6 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 2 - Mamma Said

Talvez morrer não fosse tão fácil como achava que seria, um tiro na cabeça teria sido mais eficaz, mas infelizmente em muitos casos, não neste em específico, a clareza do pensamento vem apenas na derradeira hora, talvez essa clareza dissesse a Julio que seria melhor não se matar, e que a vida por mais difícil sempre compensa mais que uma fuga covarde.

Mas ele não morreu, nem pelo veneno de rato, nem pelo de formigas, não morreu pelo corte nos pulsos e nem pela eletrocução na banheira, alguém ou algo, “algo” era mais provável, não queira que ele batesse as botas. Julio se lavou, o estomago ainda doía, o pulso ainda sangrava e os cabelos ainda pareciam exalar a fumaça do choque. Julio não tentou o tiro na cabeça, pois estava cansado de tudo aquilo, que diabo de vida era aquela que ele mesmo não podia acabar? Que diabo de Deus ou o próprio diabo deixaria alguém assim semi-vivo. Seria por capricho? O estado de clareza em que estava lhe devolveu apenas uma resposta. “Não foi sempre assim sua vida?” e ele sabia que a pergunta era retórica

Saiu do quarto e por um momento pensou estar realmente morto, sua mãe estava no fogão, a despeito de toda a dor em seu corpo e do fato da mãe estar morta desde que Julio estava na quinta série, quinze anos antes, Dona Norma preparava o almoço, deveria ser isso, pelo menos àquela hora.

- Deveria estar com vergonha mocinho – disse sem se virar – que educação eu te dei para que você fizesse uma besteira dessas?

Não achou estranho a mãe estar ali, não mesmo, apenas interessante, se a mãe realmente estivesse ali, poderia dizer se estava morto, ou não estava, ela continuou, como que lendo os pensamentos do filho.

- Você não está morto, mas não está vivo também, a besteira que acabou de fazer é pior que se tivesse morrido lá fora, e fico realmente triste por isso, gostaria de te encontrar ainda, mas não desse jeito que estamos agora, gostaria de te abraçar, mas não posso...

- Não estou entendendo mãe, não entendo nada, o que aconteceu? - se aproximou da mãe, mas foi impedido por uma aura dourada – o que eu fiz?

-Você realmente não se lembra? – se virou e encarou o filho, o que assustou um pouco Julio já que no lugar dos olhos da mãe ardiam duas chamas muito vivas, vermelhas, alaranjadas, amarelas, e quentes. – olhe no espelho, e eu te explico.

Julio se virou, havia um espelho no mini hall de entrada do apartamento que ficara pra ele quando a mãe morreu, e não entendeu como enxergava tudo isso, pois não via olhos em sua face.

- As chamas em meus olhos dizem que tipo de criatura eu sou aos olhos de Deus meu filho, a falta delas nos seus também – ela se dirigiu a Julio mas parou a cerca de dois metros do filho - você realmente achou que podia tirar sua vida quando quisesse? Realmente achou que teria paz cometendo algo tão mundano assim?

- Eu consegui então? Consegui me matar? – passou a mão na cabeça num gesto inconsciente de perplexidade, a mãe reconheceu bem aquilo – mas porque estou aqui ainda?

- Porque é aqui que os suicidas ficam meu filho, na terra, ele não vão nem para o céu, nem para o inferno, sequer passam pelo purgatório, vivem sua eternidade sofrendo das dores que causaram a si próprios, e as suas almas, quando expurgaram a vida do corpo.

- Mas eu tenho meu corpo ainda, minha alma ficou presa ao meu corpo, por quê?

- Você já não sai de casa a mais de uma semana – disse Dona Norma – as coisas estão calamitosas lá fora.

Julio não pode deixar de pensar, com um arrepio, que a morte deixara o vocabulário da mãe muito mais elaborado e conciso

– Pelo que sei – continuou - as portas do céu e do inferno estão fechadas para quem quer entrar, mas totalmente abertas pra quem quer sair, por isso vim aqui, acho que é o Juízo...

- Então eu sou um morto com alma? – Julio se sentou, a cabeça entre as mãos em outro gesto que Dona Norma reconheceu, esse demonstrava desespero – Como é possível, tudo isso deve ser uma alucinação provocada pelo choque... Só pode ser.

- Infelizmente não sei mais do que possa lhe dizer filho, apenas mais uma coisinha, procure o padre Josué, na matriz, acho que ele poderá te ajudar – dito isso ela desapareceu.

Julio demorou a se levantar, e quando o fez notou que havia uma rigidez em seus membros, o cabelo onde passou as mãos estava seco, parecendo palha, a oleosidade sumira, se olhou mais uma vez no espelho e não pode deixar de se assustar.

Destrancou a porta com grande esforço, seus dedos pareciam dormentes e perdera a sensibilidade por completo, foi difícil descer os seis lances de escada naquele estado, o elevador não funcionava, e os corredores do condomínio estavam vazios e silenciosos. Chegou até a portaria do prédio e parou por um instante, mesmo com medo de não conseguir se mover novamente, se ainda respirasse com certeza soltaria um suspiro, o céu estava azul de um jeito que nunca vira antes, pôde ver nuvens no céu, poucas nuvens brancas e fofas passeando no azul, Julio achou tudo lindo, até ouvir o primeiro grito vindo da rua.

O grito é o recurso final de qualquer criatura, é como se gritando os seres vivos possam desviar a atenção do que vêem ou sentem, o grito que Julio ouviu era agudo e aquoso, e ele sentiu pela primeira vez que não era só desvantagem se tornar o que se tornara, pode perceber, como se olhasse diretamente com seus ausentes olhos, a criatura que emitira o grito, ele ficou parado por mais um tempo, a visão fora o bastante para fazê-lo querer poder correr, vira uma boca sangrenta e uma garganta cortada, sangue vertia do corte e em seguida a cabeça caíra no chão, era o dono do depósito de gás que ficava na esquina do condomínio, e parecia já estar morto antes mesmo de sua cabeça ter sido separada do corpo por um homem, um pouco mais novo que ele, empunhando uma espada de samurai, buscou em sua mente o nome da arma, conhecia o nome, mas ele lhe fugira de ultima hora, como um mosquito que tentamos matar com as mãos.

Julio se moveu novamente, mais um tropeço atrás do outro do que propriamente um andar normal, saiu pela rua lateral do condomínio, uma rua sem saída que terminava na ferrovia, e se dirigiu até a rua onde vira (ou sentira) o jovem com a espada de samurai. Ouviu mais dois ataques, duas das criaturas foram para cima do garoto, captou um pensamento... Namorados... não entendeu por completo mas achou estranho, o rapaz eliminara os dois como fizera com o primeiro, o que o fez pensar em um filme que vira há algum tempo, uma moça de amarelo decepando membros como quem corta manteiga, não gostara muito, nem vira a continuação. Seu pensamento ficara rápido, como se não dependesse mais do cérebro para pensar, pois não sentia nada quando pensava, apenas recebia a informação como se usasse um daqueles pontos de comunicação que os jornalistas da TV usam.

Chegou á rua e se virou para ver o rapaz, não que precisasse se mover para isso, virar o pescoço e tudo o mais, mas o hábito era natural demais para ser repreendido. Viu o jovem, jovem como ele com uns três anos de diferença no máximo, e o jovem o vira, e de longe pensara nele como um ser humano, mesmo ele ainda se via como um. Por um instante o rapaz, seu nome era Ricardo, Julio soube através do “ponto”, Ricardo olhou e em seguida estremeceu, e parou.

Para alívio dos dois o encontro fora postergado, o rapaz da katana (e a qualquer momento o nome viria a Julio) parecia disposto a matar, e o semi-zumbi, não sabia o que poderia fazer com o corpo lento, lento como se andasse no fundo de uma piscina. Julio seguiu seu caminho, reto e em frente, por um momento a idéia de chegar até a igreja teve de esperar, já que para chegar lá precisaria passar pelo rapaz com a katana (isso! Katana, Esse era o nome da espada de samurai). Mas resolveu pegar o outro caminho, mais longo, a despeito das criaturas que sentia por lá, teve certeza não se machucaria, não enquanto fizesse de conta que era uma delas.

Julio seguiu a rua, o centro velho da cidade estava como fora há cinqüenta anos, casinhas cujas janelas abriam para as calçadas, as portas de quase três metros de altura e finas como se servissem para girafas, casas lado a lado, se percebendo onde uma começava e a outra terminava apenas pela diferença na pintura, uma desbotada e outra descascada por assim dizer, não havia cores nos salões da ruína, só teias de aranha e o barulho de algo na escuridão, algo que em breve pararia de funcionar, recebeu essa frase do “ponto”, e era cada vez mais difícil não se referir àqueles insights de percepção de maneira que não fossem algo externo, e de onde viera isso? Onde lera algo parecido? Todo o conhecimento prévio que possuía estava ficando difícil de acessar, mas em compensação teve certeza que responderia qualquer pergunta feita diretamente a ele.

Chegando à avenida que margeava o rio, reparou os vários corpos caídos na água, de alguns só se via o topo das cabeças, eles podem andar sob a água, não respiram, como eu, não notou que fizera por si mesmo a observação. Seguiu por toda a extensão da avenida até chegar na rua que o faria atravessar a ferrovia e entrar oficialmente no centro da cidade, dali até a matriz eram apenas dois ou três quarteirões de uma leve subida, bem diferente da qual dera as costas, e para onde o rapaz de nome Ricardo, estava seguindo, seguindo com sua vontade de matar, ou caçar, como captara no lampejo de seus olhos.

Não fosse pelos carros parados no meio das ruas e alguns corpos no chão, Julio teria certeza que o domingo chegara mais cedo, o centro parecia exatamente ás moscas como ficava nos finais de semana após as seis horas da tarde de sábado, lojas fechadas, nenhuma alma viva no calçadão, e isso ainda era verdade, pois as criaturas que Julio avistara andando tão devagar como ele próprio, não estavam vivas, e sequer possuíam uma alma, e nisso, ele deu graças embora há muito tempo não dirigisse a palavra aos céus, eram bem diferentes dele.

Sua presença não foi notada, ou o deram como um deles, não sentiu nem captou nenhum pensamento vindo delas, nada, somente a fome que sentiam, sentiu o cheiro delas, nada que exalasse aquele odor poderia ser bom e teve certeza que nem um urubu se aproximaria de tal criatura, mesmo morrendo de fome, há quanto tempo havia começado isso? Uma semana, três no máximo, e tudo já estava naquele estado, ficou com medo de o corpo assumir tal forma e aspectos, mas não vai assumir, sua alma é viva, ela ainda habita seu corpo, você é quase um vampiro, só que sem a fome do sangue, alias, sem fome de nada, apenas a dor, dor no estomago cheio de veneno de rato, e ele sentiu a dor, vinha sentindo uma ardência nas entranhas desde que saíra de casa, mas agora, parecendo instigada pela voz, doeu de verdade, e ele soube o que teria de agüentar, para sempre.

continua....

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 1 - Snuff - Parte II

Agora viria a subida, o que atrasaria um pouco seu caminho até o bairro onde Bianca morava, “e provavelmente não more mais, não no sentido literal da palavra” disse a voz esganiçada e irritante em sua cabeça. O rio estava lotado de corpos e alguns deles ainda se moviam, viu carros também, homens, mulheres, velhos, viu um urso de pelúcia, que deixara de ser uma das prioridades de sua antiga dona, já que ela parecia estar se divertindo boiando sobre um homem gordo, há poucos metros dali, comendo suas entranhas.

O caminho com certeza ficou mais difícil, mais trabalhoso, estava com uma condição física boa, as duas espadas quase não faziam peso, mas o sol estava forte, forte como no campo, o que fez Ricardo imaginar que a pouca quantidade de pessoas vivas, nenhum carro funcionando, ou fábrica poluindo o ar haviam nestes três dias, dado uma trégua ao céu, era o efeito parecido dos feriadões, quando todos iam até a praia e o clima melhorava na cidade onde “sempre chovia”.

Eliminou mais três zumbis até a metade do caminho que ainda teria de percorrer, um do tipo “Gordão”, que eram mais lentos e desajeitados em sua pós-vida e dois do tipo “standard” que era como chamava os saídos do velho clipe Thriller, sem alguma parte do corpo ou com sérios ferimentos em todo ele, estes foram atraídos pelo grito final do “Gordão” algo que lembrou um motor de barco submerso em água. Serviço rápido, embora fossem dois e estivessem juntos como namorados em um passeio de tarde, se fossem três com certeza estaria encrencado, sua roupa não tinha nada de especial e só agora se dera conta do erro crasso, na empolgação de sair à caça, esquecera-se de se proteger, não possuía Green herbs nem First Aid Sprays na vida real .

“Você é um doido de um Nerd, Ricardo, um doido varrido, é inteligente, muito, mas um doido varrido de um porra de um Nerd isso que é”

Não era tão repreensivo pensar assim de si mesmo, quando se dialoga diariamente com as idéias dentro da cabeça, acaba-se criando uma segunda personalidade, em alguns casos é essa personalidade que nos salva das enrascadas, pois observando a distância o que ocorre ela tem o dom de dizer exatamente o que não havíamos enxergado, e claro que pode fazer isso, todo mundo vê melhor o show sentado no camarote.

O resto do caminho foi tranqüilo, ainda estava meio longe dos bairros, o trajeto já fora uma avenida bem movimentada, cercada de fábricas, oficinas e estacionamentos, numa destas oficinas, Ricardo encontrou um macacão grosso e em um estado razoável, sujou um pouco das mangas com graxa e as pernas também, ficaria insuportavelmente quente, mas poderia ajudá-lo a esquivar (ou escorregar) por entre várias mãos que com certeza encontraria entrando novamente nos bairros.

Seguiu mais um tempo pela avenida, mas por fim não teve mais como evitar adentrar o subúrbio, alongara sua caminhada por quase dois quilômetros do destino, seguindo a avenida até o ponto em que virando reto a esquerda chegaria a casa de Bianca, o que era apenas um sonho ainda, enfrentaria cerca de vinte quarteirões e todo o tipo de abortos da natureza que haveria ali, mas antes teve a idéia de passar pela igreja, o que sem duvida fora uma ótima idéia, e não fora de sua consciência dominante, podem dar graças a isso.

Desta vez foram cerca de quinze criaturas, logo que entrou no bairro, três de uma vez as outras vinham como vêm os capangas de filmes de artes marciais, Ricardo não deixou de achar tudo isso muito engraçado, as bestas tinham medo, reconheciam que quando a espada separava o corpo das cabeças aquele era o fim, e ficavam receosas. Placar 15 a 0, ou 16 a 0, tanto faz, Ricardo ainda estava invicto, no ultimo momento a graxa da manga fez seu trabalho quando uma velha, com os olhos pendendo da metade do rosto que parecia ter sido atacado por um urso, agarrou seu braço, um puxão fora o suficiente, uma gingada com a katana, uma volta e o olho da velha senhora chegou ao chão,acompanhado pela cabeça a qual ainda estava pendurado.

Vitória!

Achou sensato usar um tipo de máscara que pegara na oficina, logo após um pouco do sangue da velha ter espirrado em seu macacão, não queira botar á prova a contaminação não inoculada pela mordida. Chegando perto da igreja soube que fizera uma escolha sensata em passar por ali, havia alguns zumbis circulando, do tipo standard, seriam rápidos, mas não o bastante para agarrá-lo se corresse, para onde? Ele se perguntava, para onde? Para dentro da igreja sua mula, olhe.

Ele olhou e viu.

Nenhuma das aberrações colocava os pés para dentro do terreno da igreja, nenhumazinha sequer, Ricardo sorriu nervoso, afinal não era nenhuma infecção viral, T-Vírus, G-Vírus, ou qualquer outro vírus que enfrentavam, era o maldito juízo final, isso era. Aquelas bestas não entravam na igreja porque alguma coisa ali as expulsava, alguma coisa que tinha um nome e da qual já ouvira bastante em sua infância, nos catecismos e missas.

Correu como um desesperado se esquivou de todos os zumbis, e no ultimo momento, de relance viu um vulto negro pulando (ou voando) a seu encontro, empunhou as duas katanas e fechou os olhos enquanto pulava de costas para o chão defronte a igreja, cortou um X no ar com as espadas afiadas. Ao sentir as costas no chão abriu os olhos, a espada que ainda não usara, a “sua katana” já que não havia outra igual em todo mundo (isso o anúncio garantia), estava suja de sangue, vermelho escuro, quase vinho, sangue parado. E pouco antes do portão da igreja, jazia um hibrido de cão e homem, pequeno, menor do que ele imaginava serem estas criaturas, e com o olhar mais aguçado pode ver que não era o que pensava ser, por Deus, ainda bem que não, ele já tinha problemas demais com zumbis para ter de adicionar lobisomens a sua enciclopédia do bizarro.

- Ei, você, aí embaixo de máscara, entre, eles não podem passar do portão, mas só Deus sabe o que os outros podem fazer. – a voz era familiar, fazia seu coração saltar, naquele momento ele teve duas certezas, fora realmente uma ótima idéia passar por ali, e que não gostaria de descobrir o que seriam “os outros”.

A porta estava destrancada, certamente para facilitar a entrada dos que podiam pisar ali, a igreja estava vazia e não se ouvia muito mais que o barulho dos passos ecoando na imensidão da nave, nunca havia entrado ali, não era como a matriz para onde voltaria assim que terminasse seus negócios, mas mesmo assim era grande. Tirou a mascara e se virou para ver a mulher que lhe chamara pra dentro, virou-se no momento em que ela o observava, e os seus olhos reconheceram os que os reconheciam de volta.

Ela veio correndo e a despeito das duas espadas pulou agarrando o pescoço de Ricardo e segurando fortemente.

- Não acredito, não acredito meu Deus do céu, devo estar sonhando, não é possível.

Segurou o rosto de Ricardo entre as mãos e quase lhe deu um beijo, ele pode ver a idéia em seus olhos, mas viu logo em seguida a compreensão da situação que precedera aquele momento. Não se viam há pelo menos dois anos e neste tempo ela ficara normal, não era mais aquela pelo qual ele daria o mundo, seu cabelo estava mudado, escoado ao invés do levemente encaracolado de antes, seu rosto estava magro e seus olhos denunciavam tristeza, não porque ele queria ver a tristeza ali, mas porque era impossível não enxergar a sombra de dias e noites sem sentido, ele mesmo tivera a sua cota de desespero diário desde que olhara pela ultima vez aqueles mesmos olhos.

- Não que eu esteja me achando demais – ela disse – mas você está aqui pra me salvar não está? Não é apenas coincidência você ter atravessado a cidade e estar aqui por acaso não é?

Ricardo limpou as espadas e as guardou, permaneceu com o olhar preso nos olhos castanho-escuros de Bianca:

- Não é mesmo coincidência eu estar aqui, mas nem no fundo do meu pensamento passou alguma vez a idéia de te salvar, não esperava te encontrar viva, não no sentido verdadeiro da palavra, e caso a situação fosse essa, eu teria o que fazer, essa era a idéia.

Por enquanto deixemos os dois aí, neste santuário, Bianca entenderá o que Ricardo quis dizer, mas não de imediato, ela nunca foi muito boa em compreender as palavras, principalmente quando saídas da boca do homem que sempre disse que a amava mais que tudo.

É para Julio que mudamos nosso foco agora, o homem desorientado que Ricardo viu em seu caminho, e que não era nada mais que uma pobre alma, presa em seu corpo pelo pecado imperdoável de tentar tirar sua própria vida.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 1 - Snuff

Se fosse para salvá-la teria explicação, faria sentido, o problema era exatamente este, se arriscar indo até a periferia da cidade, apenas para ter uma chance de fazer o que não poderia fazer numa situação normal, era insano, infantil, mas era o que estava fazendo. Levaria pelo menos uma hora, ou duas ou três, dependia do caminho, mas com a pergunta “será que ela está viva?” indo e voltando em sua mente, todo o esforço que fazia parecia o esforço de um sonho, dos piores, onde corremos e não chegamos a lugar nenhum.

Só fazia três dias que o inferno havia tomado a terra, que as aberrações andavam pelas ruas, o engraçado para Ricardo, era ter sempre esperado por este dia, não por ser um religioso fervoroso que acreditava no julgamento final, mas por acreditar piamente na tomada do mundo dos vivos pelos mortos.

Possuía algumas qualidades incomuns, talvez até por pensar nestes derradeiros dias. Treinava kendo desde os dez anos, isso o fazia mortal com uma katana já que praticava há quase quinze anos, e possuía muitas delas em sua casa, todas sem fio, mas o fio, como vira na Internet, era só uma questão de combinação entre um bom aço e uma boa pedra de afiar. Infelizmente as pedras usadas pra se afiar katanas não eram encontradas em árvores, isso nem no Japão, felizmente, e isto parecia ironia do destino, o pai de Ricardo era serralheiro, profissão que sempre quis passar adiante, apesar das constantes negações e da falta de entendimento comum entre pai e filho sobre o que fazer da vida.

Ricardo afiou duas de suas katanas, a réplica da “Hanzo” de Beatrix Kiddo que era forte e forjada a mão por um senhor que encontrara pela internet, e uma comum sem qualquer adereço ou característica peculiar, apenas o preço que pagara, pois era também forjada a mão, mas importada do próprio “país das espadas”.

Ricardo saiu de casa e tinha medo, medo de encontrar a mãe, ou o pai, ou os irmãos transformados em algumas destas bestas que andavam pelas ruas, tinha medo de encontrar os amigos, mas o medo não era de encontrá-los, e sim do que teria de fazer caso isso acontecesse. Desde o dia em que as coisas deram errado ele não os vira mais, tinham saído para seguir sua rotina diária, ele sairia mais tarde, estava de folga e começaria a trabalhar a noite naquela semana. Nunca mais os vira nem veria novamente.

A história de Ricardo, ao contrário das outras, começa em abril, e em abril as pessoas se esquecem que o inverno está chegando. Aquela sensação estranha do abafamento do outono parece nos fazer ignorar a eminência do frio e nos faz relembrar um pouco a primavera. Ricardo odiava a primavera, mas não fora sempre assim e talvez isso mudasse novamente, talvez neste outono, apesar do fim do mundo eminente ele voltasse a se alegrar, talvez, acabasse por conseguir isso.

Há alguns anos atrás seus olhos poderiam ter se enganado...

...e se seus olhos não estavam enganados, e eles se enganarem quando o assunto era mulher era bem comum, ela lhe retribuíra o olhar, mas os seus já estavam cansados de falsas esperanças, e as falsas promessas que os olhos de muitas mulheres transbordam, já que ás vezes por esporte, ás vezes para alimentar sua auto-estima, algumas mulheres se engajam em conquistar, sem nenhum intuito de realização, o coração de um homem. Geralmente os homens nem levam a sério e até gostam da brincadeira, mas tão certo como nem todas as mulheres são assim, os homens também não o são. Talvez este tenha sido mais um desses olhares.

Seguiu-se o que talvez nem Bianca, a ex-namorada de Ricardo tenha sabido. Homem apaixonado, mulher fria, e como juntar água quente a alguns cubos de gelo, o resultado é água morna. Não deu certo, e após um tempo de tentativas, um longo tempo, tudo acabou, Bianca seguiu sua vida como se tivesse tirado uma espinha do rosto, e Ricardo ficou do jeito que sempre fora, com a diferença de continuar amando o que nunca seria seu completamente.

A caminho do bairro onde Bianca morava, atravessando uma área de estranha calmaria, Ricardo ainda pensava nisso tudo, remoia desde aquela primavera. Só precisou de sua espada (a Hanzo) três vezes, eliminou um zumbi, e suas várias horas limpando Racoon City, não o deixavam se enganar ao saber que sim, era um zumbi, eliminou também uma espécie de cachorro com asas e uma serpente com chifres, criaturas tão bizarras que não possuía referencias para classificá-las.

O centro da cidade estava vazio, e claro que assim esperava, pois era nas redondezas que havia casas, e as casas possuíam o alimento das monstruosidades. A cidade era separada pela ferrovia, desativada havia anos, o cenário sempre o fizera se lembrar de seu jogo favorito, e agora vazio, era como uma realidade feita partir dos pixels visitados por Gordon Freeman, o cara mais durão e mais calado de todos os tempos. Ao longe viu um zumbi caminhando, tropeçando seria a palavra correta, mas ele realmente caminhava, o que lhe deu duvida de que se tratava de um morto-vivo realmente.

Aproximou-se com cautela, e deu graças a Deus por não possuir uma arma de longo alcance, senão teria matado o pobre coitado que andava trôpego, não era um comedor de carne humana desmiolado, pelo menos não por enquanto.

- Ei! – gritou – aqui amigo, atrás de você!

O homem se virou e Ricardo parou, não era um zumbi, não mesmo, mas algo nos olhos daquele homem o fez gelar, era algo pior que um zumbi, embora não soubesse ao certo dizer o que. O homem simplesmente seguiu seu caminho como se não houvesse sentido perigo em Ricardo, ou até mesmo notado sua presença.

Não era estranho, não era anormal, usava roupas que podiam ser encontradas em qualquer homem com cerca de trinta anos, o próprio Ricardo as usava de vez em quando, tinha na cara uma contorção de dor e de seus pulsos, Ricardo teve certeza, pingava sangue. Era estranha esta sensação de perigo e desconhecimento, e ele sabia que as pessoas temiam o que não compreendiam.


continua amanhã....

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Prólogo II – Learn to Fly

ctrl c + ctrl v no word pq o texto é grande :)

Isso ocorreu no ano que precedeu o fim.

A sala estava lotada, muito comum nos últimos dias de aula, mais comum no ultimo ano do ensino médio, ninguém queria ter de freqüentar a recuperação no período das férias, férias eternas da escola para alguns, o descanso merecido para outros que assim como Gabriel, se aventurariam no vestibular e com certeza, ele pelo menos, estariam sentados em outra sala de aula ano que vem, numa universidade.

Por longos onze anos Gabriel agüentou as encheções de saco de seus “colegas” de escola, muitas delas violentas e outras apenas ofensas de nível primário, espinhudo, quatro olhos, narigudo, nerd, Olívia Palito eram alguns de seus pseudônimos, logo isso acabaria, e ele finalmente se veria livre. Se o destino dele fosse diferente e permanecesse este garoto, no próximo ano ele perceberia que os valentões, bonitões e queridinhos da escola, são os primeiros a desandarem no “mundo real” a escola nos tira a percepção do que realmente somos, é como estar imerso em uma piscina, por tempo demais, quando saímos percebemos que não somos tão leves como éramos lá dentro.

Faltando alguns segundos para o sinal do término da aula Gabriel sentiu um peso no estômago, sua pele ficou fria e as costas começaram a arder, como se a estivessem cortando, dos ombros até a espinha, com ferro quente, se debruçou na carteira e ali ficou. Gabriel nunca olharia para o passado como humano, daqui a exatos trinta minutos, toda a percepção que possuíra seria alterada pela real verdade, aquela que juram não existir.

“Ele” chegou à escola e sabia que ali teria de matar a todos, alguém dali precisava morrer e rápido, sem tempo para lembranças, “ele” foi escolhido por ser o mais indicado para o serviço, e não queria perder tempo examinando cada centímetro daquele local que cheirava a juventude, um massacre era mais a sua cara, era isso que fazia seu emprego divertido, isso que o fizera se tornar o que era, muitos haviam estado no seu lugar antigamente, usando o mesmo nome, a TV, cinema, literatura, até o próprio livro santo conheciam seu nome, não seu verdadeiro, mas o nome teatral que confundia a mente de todos e denotava poder a seus feitos, “somos muitos” a verdade era quase esta, foram muitos, um de cada vez, cada época com seu carniceiro em especial, cada época com a máscara que mais amedrontava os pobre mortais, no fim das contas era mais um, talvez o pior deles, até o próximo que tomaria seu lugar.

Entrou na escola e teve de se segurar diante a náusea de um lugar tão iluminado e alegre, havia maldade também ali, bastante, via auras negras através das paredes, mas a maioria era de luz, crianças comuns, deduziu que no térreo ficava a creche, a primeira, segunda e terceira séries, dificilmente alguma criança mantém esta luz por muito tempo, o mundo toma conta de ofuscar um pouco de seu brilho, na maioria das vezes, através de alguns pais e mães.

Ninguém o via, mas o faxineiro e a inspetora de alunos que passaram pelo corredor onde andava tiveram a pior sensação de suas vidas, “ele” seguiu o corredor e subiu as escadas, pouca luz no primeiro andar, a maioria já estava corrompida, não que isso significasse pura maldade, mas a corrosão de uma alma, na maioria das vezes não a torna ruim, apenas sem brilho, apenas um lampejo cinza de uma vida sem sonhos, mas a única coisa que basta para o mal triunfar é alguém de bem não fazer nada, não é?

No segundo e ultimo andar “ele” teve de se concentrar, não precisou de muito tempo para descobrir quem teria que matar. Sempre gostara dos segundos que antecediam o inicio da matança, ela não durava mais que 5 minutos, e no final, o cheiro doce do sangue, o silencio após os gritos de agonia e dor, o embriagavam como nenhuma droga já havia feito. Se aproximou da sala de aula, olhou pela pequena janela na porta e parou por um instante, só agora entendera a dificuldade de sua missão.

Dentro da sala, entre várias carteiras viradas e jovens em círculos estava Gabriel, ajoelhado a sua frente um rapaz alto e forte, duas vezes maior que o garoto franzino no chão, a professora estava num canto acuada e não fazia nada, olhou pela janela e o enxergou, claro que o enxergou, não conseguia fazer nada em forma de espírito, tinha de materializar, e naquele ponto, na eminência do ataque que deveria ser surpresa, só um cego não veria. Olhou novamente para o centro da sala, a luz que vinha dali era ofuscante. Entrou na sala, sacou o punhal e avançou, seu golpe foi rápido, e em dois movimentos o coração do garoto estava em suas mãos.

Quando Gabriel se deitou na carteira, sua omoplata parecia querer sair através da pele, sabia que não devia ter se esforçado tanto na aula de educação física, não devia nem praticar qualquer esporte, mas a dor não era só essa, e já havia sentido anteriormente tudo o que o atormentava naquela tarde de dezembro, nunca era bom sinal, sempre que a pele dele gelava daquela maneira alguma coisa ruim acontecia, o acidente que matou o pai, alguns incêndios perto das casas, e foram várias, que morou nestes quase dezoito anos de vida, tudo após aquelas dores. A dor não passava e isso o irritava.

- Gabriel – disse a professora, sua voz esganiçada era inconfundível – leia a página trinta do livro de história.

Não conseguia se mexer, a voz da professora parecia vir de muito longe e as dores que agora varavam seu estomago eram muito fortes para que pudesse pensar em mais alguma coisa que não fosse sofrer.

- Gabriel, eu falei com você – novamente a voz de taquara rachada – quer que eu te mande para a diretoria, pois eu mando, você é um excelente aluno, mas eu não tolero falta de educação.

- Acorda quatro olhos, ficou surdo além de cego – seguido de várias risadas e outros xingamentos.

- Vamos seu maricas, levanta daí.

Uma mão caiu em seu ombro, a dor quase explodiu sua cabeça, num movimento involuntário retirou a mão e empurrou seu dono, péssima idéia, era Henrique.

Henrique era o tipo de rapaz com quem não se brincava, nem por brincadeira mesmo, seu cérebro só comandava suas funções de sobrevivência, era forte, e burro, muito forte e muito burro, mas em seu mundo, o mundo onde todos o temiam, nunca ocorreu, nem no mais impossível sonho, ser empurrado por Gabriel, tanto que ficou apenas olhando para o garoto, até que o que tinha acontecido houvesse se solidificado em sua cabeça.

Neste momento todos os alunos em volta haviam se retirado e dado espaço para o show, Gabriel continuava debruçado seu braço direito voltara ao ventre, ninguém via a chama que ardia em seus olhos.

- Acho que hoje você vai morrer seu nerd de merda, hoje não tem quem te salve, nem Deus.

Com as duas mãos Henrique levantou Gabriel e o atirou na parede, como se atirasse um saco de pano, as costas do menino bateram na parede e a dor, que só aumentava chegou ao seu ponto máximo, isto o despertou, para tudo.

Ajoelhado no chão, com muita dor ainda, Gabriel olhou para cima e viu Henrique bufando, notou que um homem alto e estranho entrou na sala, notou que todos os que estavam em volta pareciam mais fracos, mais humanos, sentiu que a professora morreria logo por um câncer no estomago, coisa que ele nem sabia, percebeu que lá fora um pássaro acabara de mergulhar para pegar seu alimento no gramado, grilo ou louva-a-deus quem sabe, o homem, que não era um homem, mas sim um “deles”, não sabia como, mas era assim que sua mente se referiu ao esguio de cabelos negros oleosos que se aproximava por trás de Henrique e que tinha algo que brilhava muito em sua mão esquerda. Suas costelas pareciam estar crescendo dentro do corpo e de um instante sua dor parecia sumir, sentiu uma ultima pontada nas costas, perto do pescoço e a paz veio.

Na opinião da professora aquela briga daria em algo muito feio, quando tipos como Henrique, fortes e burros, se metiam a bater em franzinos e fracos, inteligentes, mas ainda assim vulneráveis fisicamente como Gabriel, tudo de pior acontecia, mães viriam no outro dia, pais viriam no outro dia, providencias precisariam ser tomadas e caso o ano não estivesse no fim, Gabriel teria de ser esperto e correr na hora da saída, pois fora da escola, ninguém o protegeria da vingança infantil e cruel de Henrique.

Por um segundo sua atenção foi para o homem na porta, o estranho homem que olhava para dentro da sala pela janelinha, seu olhar a fazia ter a sensação de mil invernos e ferro em brasa nas entranhas, caso soubesse da dor que Gabriel experimentava, saberia que isso seriam cócegas para o menino. O homem entrou na sala e as luzes escureceram, no momento achou que sua pressão caia e que desmaiaria, mas as luzes escureceram realmente, o homem sacou algo brilhante, levantou no ar e a professora viu o que era, linhas vermelhas brilhavam na lâmina, num movimento rápido o homem cortou duas vezes o ar e sangue espirrou, nada que ela vivenciou em seus quase sessenta anos poderiam lhe preparar para os próximos minutos de sua vida.

Lílian via Gabriel no chão e não podia fazer nada para ajudá-lo, era uma moça forte, mas nem se comparava a montanha que era Henrique, seu melhor amigo continuava caído no chão e gritava de dor, como se esticassem sua pele e o suspendessem por ganchos como naquele filme Hellraiser que vira com o irmão mais velho quando era criança, a imagem nunca abandonou sua mente e era sua referencia de dor absoluta, isso seria um carinho para Gabriel.

De repente tudo se silenciou, Gabriel não mais gritava e a camiseta do Manowar de Henrique estava ensopada de algo que era difícil de identificar devido a sua cor preta, um homem estava logo atrás dele, Lílian não notara sua chegada, mas se sentiu mal em lhe dirigir o olhar, Gabriel continuava em silencio e finalmente olhou para cima.

Na antiguidade era muito comum a visão de seres que promoviam tanto o mal como o bem, os bons jamais apareciam em situações normais e geralmente só se faziam ver por olhos mortais quando os ruins promoviam o caos e a destruição, alguns os viam quando Deus, e mais antigamente os deuses, precisavam passar mensagens aos humanos, com o tempo, assim como em vários mundos, desde a base da Torre, os homens começaram a racionalizar demais seu universo e esquecer da magia e destas criaturas, dos dois tipos delas, a elas eram atribuídas outras funções, mais simples e menos respeitosas que as de antigamente, assim o homem transformou-os em parte da mitologia religiosa, e do folclore sobrenatural do mundo.

Dois feixes de luz saíram das costas de Gabriel, e a dor que parecia infinita se tornou algo imperceptível, seus olhos arderam em chamas multicor e sua pele em fogo, mas nada disso doeu, várias imagens passaram por usa cabeça, milhares de anos num piscar de olhos, guerras, batalhas, humanas e divinas, do big-bang até aquele segundo, atingiu toda a plenitude de seu raciocínio e se deliciou em diversas conexões neurais de prazer, em árabe, turco, russo, inglês, português, espanhol, italiano, francês, alemão, japonês, e todas as línguas do mundo, vivas e mortas, do céu e do inferno, sentia tudo ao seu redor a nível molecular, poderia escolher um átomo de oxigênio e ver dentro dos seu núcleo os pequenos universos que ali existiam.

As carteiras se afastaram e uma redoma de luz os cercou, Gabriel, Henrique e o homem misterioso. Quem ficou de fora viu pouco do que aconteceu, o homem misterioso não viu nada.

Os feixes de luz nas costas de Gabriel se avolumaram e começaram a tomar forma, sua mão direita brilhou e esta luz se alongou até se tornar um fino fio, outros raios se esticaram também e começaram a tecer algo, Gabriel se levantou e agachou-se de novo, como espuma asas brotaram em suas costas e quando se levantou, belas e macias penas brancas as cobriam, se arrastavam no chão, em sua mão uma lança apareceu, a lança que certa vez bebeu o sangue do homem mais santo do mundo e que fora abençoada pelo poder da água da vida que de lá brotou, num movimento simples e extremamente rápido Gabriel perfurou o corpo de Henrique, que ainda permanecia ereto, varou seu coração e acertou o homem que o segurava, ao recolher a lança o coração de Henrique lhe foi devolvido e o sangue que uma vez circulou pelo corpo mortal do filho de Deus, lhe devolveu a vida, para o homem esguio de cabelos negros só restou a morte a eternidade de sofrimento vagando pelo mundo sem direito a por o pé no chão firme, assim como foram condenados todos antes dele.

Um segundo, ou dois, não mais que três, a luz abandonou o centro da sala, Gabriel olhou para Henrique que estava em torpor ainda:

- Todos os seres de Deus merecem a vida, mesmo que estes não valham um nada, você é novo ainda, pode mudar, aproveite este milagre e mude.

Henrique continuava olhando para o menino em que daria uma surra há menos de dez segundos, nunca, pelo resto da sua vida esqueceria o que vira naqueles olhos por trás dos óculos, vira ódio, raiva, justiça, mas também vira compreensão, vira bem e podia jurar, de pés juntos e que a mãe dele morresse naquele instante, que vira amor, mesmo por ele, compreendeu naquele instante o que o garoto era e tudo o que deixara de acreditar quando o pai morreu fez sentido.

- Desculpe-me Senhor – o menino se ajoelhou e chorava, todos na sala pareciam diferentes, mais humanos, mais tementes – prometo nunca mais fazer nada do que fazia.

- Eu não sou Senhor, mas fui enviado por ele, faça o que tem de fazer, não é a mim que você deve explicações, apenas faça o que tem de fazer, no juízo, e acho que eu estando aqui, desperto como estou, ele está mais próximo do que nunca, você acertará suas contas.

A voz era de Gabriel, mas ao mesmo tempo não era, por trás da tonalidade doce do menino algo mais falava, algo que não podia ser ignorado, talvez fosse a própria voz de Deus, e era difícil não tentar fazer exatamente o que o garoto dizia, mesmo que fosse tirar a própria vida, por um instante a professora entendeu o que Abraão sentira e não o culpou por isso.

As asas se desfizeram em luz, Gabriel, que tinha todos os motivos do mundo para ter este nome, continuou em pé a Lança de Longinus desapareceu, a chama em seus olhos também, mas ele continuava sendo quem era, continuava se lembrando de tudo e soube naquele instante que teria de encontrar os outros, algo ia errado, muito errado, era fim de ano, e toda virada do ano prometia algo novo, o que não era necessariamente bom.

Todos continuavam olhando embasbacados para o franzino garoto, alguns não entendiam o que havia acontecido, outros como Lílian sabiam perfeitamente, a garota sempre soube que o menino possuía algo diferente, algo que a acalmava e confortava com a simples presença, e mesmo a despeito do que sentia por Gabriel, sabia que não era a única a perceber isso, sabia que meninos como Henrique, que eram de mal com a vida, se irritavam com a presença de pessoas que têm tudo para ser como eles, mas que se mantêm serenas e dispostas a ajudar os outros, enfim sempre soube que o garoto que amava era um anjo.