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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Paraíso Perdido Parte II - Capítulo 1 - I just called.... Parte 1

- Alô?

- Oi, sou eu, tudo bom?

- Tudo, você ta melhor?

- To sim, a febre baixou e minha garganta não ta mais raspando. Como foi a prova de geografia?

- Foi tranqüila, mais perguntas sobre um povo que eu nem tenho interesse de conhecer e que mora em um lugar que eu nunca vou ver...

- Falando assim até parece fácil..

- E é, são só dados, nada que a gente realmente se importe, quando a gente se importa e tem envolvimento fica mais difícil. Você ta sozinha?

- Aham, minha mãe ta no hospital e meu pai foi no mercado.

- Mais tarde eu dou um pulo aí, to terminando de assistir uma série aqui no computador. Opa, isso não pode ser verdade..

- O quê?

- Um vídeo enviado pela internet, acho que é na China, uma multidão correndo desesperada e a polícia abrindo fogo contra todos, mas no meio deles, alguns só se arrastam, e mesmo com os tiros eles continuam andando, opa, ai... Um policial acertou uma pessoa na cabeça, essas que estavam se arrastando, só assim ela caiu, Deus do céu, não pode ser isso...

- Meu computador ta lá no quarto, to com preguiça de subir, mas você está me assustando, vou lá dar uma olhada.

- Calma aí. Antes disso confere se as portas estão fechadas, acabei de ver um vídeo agora que me deixou tonto, é um vídeo de celular, gavetas de necrotério tremendo e mortos saindo delas, sem braço, com vários tiros no peito.

- Deve ser algum merchandising de filme, você sabe que quando tem um filme bom pra sair eles atacam de todas as maneiras.

- Você não ta entendendo, o necrotério é aqui na cidade e o vídeo quem fez foi meu irmão, ele foi lá hoje de tarde com a faculdade, falou que a situação nas ruas não é das melhores e que ele tem certeza que viu o Vicente zelador do prédio estourando a cabeça do Josuel da padaria com um pedaço de pau.

- Não é possível...

-Confere as portas por favor e sobe pro seu quarto, liga a TV, computador ou o que puder, ta todo mundo maluco.

- Mas meu pai, minha mãe, eles estão lá fora, isso não pode ser verdade. Cheguei no meu quarto, Ai... ouvi um barulho lá fora, parece o carro do meu pai..

- Toma cuidado..

- Ele bateu em outro carro, o carro do Geraldo, ele ta imóvel dentro do carro, meu pai saiu do carro possesso, gritando e xingando o Geraldo, Ai meu Deus, o Geraldo tá estranho, a camisa dele ta toda ensangüentada, e ele ta arrastando o pé, não andando.. PAI, SAI DAÍ, VEM PRA DENTRO!!!, to descendo, acho que meu pai me ouviu, vou abrir a porta e trancar.

- Calma, to indo aí, em dois minutos eu chego...

- Não desliga o telefone que eu também não vou desligar, vou entrar pelos fundos.

- Ai meu Deus, meu pai levou uma mordida no ombro, funda demais. Ta doendo Pai? - Ta doendo pra caramba, esse filho da puta do Geraldo só pode estar maluco, primeiro entra na frente do meu carro, depois me morde. Quem ta no telefone? – É o Fabiano, ele ta me dizendo que ta todo mundo maluco mesmo...

- Ana, Aninha, passa o telefone pro seu pai, tá me ouvindo Ana?

- Tô sim, pera aí. Pai o Fá quer falar com você.

- Alô, Oi Fabiano, tudo bom? Eu tô puto da vida e com uma dor insuportável no braço, o lazarento do Geraldo abriu um buraco no meu ombro, o quê? Ligar a televisão? Tô ligando. Vixe Maria, Ana, fecha as portas e as janelas, o Fabiano tá na porta da cozinha, liga pra sua mãe, depois você vem aqui ver a televisão comigo.

Fabiano entrou e logo trancou a porta atrás dele, deu um beijo leve em Ana e a ajudou a fechar as janelas.

- O Geraldo ta na entrada da cozinha dele e eu tenho quase certeza que ele estava comendo a perna do Geraldinho, no caminho pra cá eu vi umas coisas muito estranhas, meu irmão não quis vir, ele tava tentando falar com minha mãe, mas ninguém do hotel onde ela está hospedada atende o telefone.

- Consegui falar com minha mãe, ela vai ficar no plantão a noite toda e só volta amanhã de manhã, mas ela falou para não saírmos de casa.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Paraíso Perdido - Parte II - As Crônicas dos Mortos

Logo que as coisas começaram a dar errado, Helena soube o que precisava fazer. No cenário caótico que se desenvolveu naquele final de outono, suas habilidades caíram como uma luva, suas posses também.

Quando Helena nasceu não havia a maravilha do ultrassom, seu pai estava crente que teria um varão, o quarto do novo bebê era azul, vários carrinhos e brinquedinhos de menino compunham o cenário. Mas nasceu Helena, incontestavelmente uma menina, e a beleza da pequena fez o pai se desmanchar e em menos de 1 hora mudar todo o quarto, exceto por um brinquedo, o móbile de carrinhos acalmava a menina. Conforme ela ia crescendo o pai percebia a mesma seriedade e destreza que possuíra na infância e quando a menina completou dez anos ele lhe deu uma espingarda de chumbinho e Helena começou a praticar. Aos vinte anos foi campeã sul-americana de tiro e se preparava para as olimpíadas que aconteceriam no ano em que o mundo mudou.

Helena cresceu envolta em armas e munição, a família era dona de uma loja/clube de tiro e sua casa vivia abarrotada de armas desmontadas e cápsulas, o apartamento que dividia somente com o pai desde que a mãe morrera no ano anterior possuía um cômodo exclusivo para o arsenal.

Na manhã do dia vinte de maio, seu pai saiu para comprar pão, e não voltou. Não voltaram também o Sr. Afonso do 312, a D. Antônia do 145, Rafaela, que saíra para trabalhar, residente no apartamento vizinho a Helena, o 323. Outros tantos não foram mais vistos, alguns deles sim, mas só por Helena, por poucos segundos, o suficiente para que fossem obliterados completamente. A idéia de escrever as memórias daqueles que partiram veio da vontade de contar as outras pessoas que Rafaela era uma moça gentil, séria e honesta, já que dado seu desaparecimento, poucas pessoas se lembravam da mulher que morava no condomínio há pelo menos cinco anos. Assim surgiam as crônicas dos mortos, título dado por Helena ao pequeno caderno de anotações que usava para registrar e prestar uma última homenagem àquelas pessoas que não voltaram.