Ricardo se dirigiu ao aposento que agora chamava de quarto, não era nem aconchegante nem estranho, era algo exatamente no meio disso, não queria se sentir muito a vontade, mas seu lado caseiro deu toques de seu antigo quarto naquele cubículo onde antes se guardava os materiais de limpeza da igreja.
A cama era desmontável, o próprio padre havia lhe dado, disse ter recebido muitos viajantes da igreja e usado demais a pobre armação de metal que sustentava um leve e fino colchão de espuma densa. Como travesseiro Ricardo enchera uma de suas camisetas com restos de tecido de algumas batas e roupas de doação que se encontravam na igreja quando ele ali chegou, não era como seu travesseiro que levava em todas as viagens, mas, o travesseiro era seu menor problema no quesito sono tranqüilo, nem demônios e abominações lhe atrapalhavam o sono, não mais, o problema era Bianca, que dormia a menos de vinte metros dele, na cama de Gustavo.
- Não consegui te agradecer formalmente por ter me salvado, mas também entendi o que você me disse naquele dia, não sei o que posso ter feito para que preferisse me ver como uma dessas coisas – ela se sentou – tanta coisa aconteceu comigo desde que estávamos juntos que nem sei mais qual dos dois deu por acabado nosso namoro, não sei se brigamos ou se terminamos numa boa, só sei que nada mais foi como naqueles três anos em que fomos um casal.
- Não há necessidade para isso Bianca, passou, se você não se lembra o que aconteceu, não serei eu a te lembrar, eu mesmo tenho tentado esquecer isso há tempos, sem sucesso.
- Em todo caso – ela se aproximou e beijou o rosto de Ricardo – obrigado por ter me trazido pra cá, e não ter feito o que queria ter feito.
- Eu não fiz pois a situação se apresentou adversa as minhas expectativas, mas teria feito se você fosse uma dessas coisas.
- Eu sei que sim, e eu lhe seria grata da mesma maneira.
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