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terça-feira, 12 de julho de 2011

Paraíso Perdido - Parte II - Capítulo 2.1 - Rafaela Mathias

conforme registrado por Por Helena Heitlun nas Crônicas dos Mortos...

Rafaela Mathias – Apto 323

Rafaela foi vista pela última vez embarcando no ônibus que a levava para o trabalho, ônibus fretado de uma grande multinacional, poucas pessoas a conheciam como eu já que sua natureza reclusa e recatada a impedia de se relacionar abertamente com alguém. Ao contrário do que muitos moradores pensavam, ela não era uma prostituta, e sim a gerente de recursos digitais de uma grande empresa na cidade vizinha, vale ressaltar que esse era um belo cargo para uma moça de apenas vinte e cinco anos. Rafaela veio do interior quando se formou, conseguiu o estágio de seus sonhos e se instalou no condomínio, pagava aluguel e metade de sua renda ia para a casa dos pais, nas diversas conversas que tivemos pude ver a moça simples que era a despeito das belas roupas e sapatos que usava para trabalhar.

Rafaela nutria uma paixão secreta por seu assistente, paixão esta que demorou muito para ser concretizada e agora quem sabe, pôde ser feita em outro lugar, deixou apenas seu gato, Chico, após a retirada dos alimentos seu apartamento será lacrado e este memorial colado na porta. Descanse em paz amiga, mas se ainda estiver entre nós, sobreviva e volte.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Paraíso Perdido Parte II - Capítulo 1 - I just called.... Parte 2

- Seu Marcos, o braço tá doendo? quer tomar um analgésico?

- Aproveita e me dá um anti térmico pq eu to queimando de febre, deve ser alguma infecção.

- Eu não quero parecer louco, mas acho que sei o que está acontecendo, já vi isso um zilhão de vezes e não posso estar enganado, dêem uma olhada – foi zapeando os canais da TV que mostravam cenas e mais cenas de completa histeria em vários locais do mundo, pessoas que deveriam estar mortas, ou no mínimo se contorcendo de dor pelas múltiplas lacerações, se arrastavam atrás de pessoas que corriam desgovernadas, carros em chamas, a polícia atirando para todos os lados. – não quero falar, mas vocês sabem o que estou pensando. Fabiano se levantou e foi até a cozinha pegar uma bolsa de gelo e uma garrafa de água.

- Zumbis, você está pensando em zumbis Fá, e eu acharia que você está louco se não estivesse vendo as mesmas cenas que você. Mas não é possível, não pode ser possível

- O fato de ser possível ou não, não parece impedir a Dona Dolores, de andar por ai mesmo com metade da cabeça amassada – Fabiano apontou pela janela da cozinha o quintal vizinho, uma mulher de meia idade vagava catatônica pelo terreno, como se procurasse algo perdido, ao se virar Marcos e Ana notaram o formato achatado que a metade esquerda de sua cabeça havia adquirido.

- Eu vou arrastar alguns móveis para bloquear as janelas, a gente vai subir e ficar no segundo andar, precisamos desligar todas as luzes, ta escurecendo e não acho uma boa idéia chamar atenção desnecessária pra cá.

Ouviram um barulho no banheiro do térreo, vidros quebrados, a porta estava fechada e Fabiano a trancou por fora, guinchos e silvos agudos vinham de dentro.

- É melhor irmos rápido – disse Marcos – Ana, pega o cooler azul e coloca algumas coisas nele com gelo, vamos levar algo para comer pra cima, conseguiu falar denovo com sua mãe?

- Ainda não pai, diz que todas as linhas estão ocupadas – Ela se dirigiu a dispensa – Fá, Fá, vem rápido aqui – gritou.

- Não grita Ana, não importa o que vej.... – ele viu.

A dispensa possuía duas janelas basculantes a cerca de dois metros de altura, tinham por volta de vinte centímetros de altura e tomavam toda a extensão da parede de um metro e meio, e estavam cobertas de mãos, que se moviam e batiam no vidro.

- Vamos, vamos, não podemos demorar mais – se dirigiu a Marcos – o senhor ainda tem aquele machado? Aquele que usou pra me botar medo quando vim primeira vez aqui.

- Tenho, mas tá la no quartinho dos fundos, por quê?

- Acho que vou ter que destruir sua escada, para nossa segurança. – Fabiano olhou para o sogro como se pedisse aprovação.

- Aparentemente você é o expert aqui, faça o que for necessário, eu vou subir com a Ana, a escada de metal está ai na dispensa, se você for sair vai rápido, antes que todos os vizinhos resolvam fazer uma visita noturna.

Fabiano abriu a porta rapidamente e foi até o quartinho dos fundos, o muro era alto e a única parte problemática era a divisa com os vizinhos que era feita com uma cerquinha de madeira, mas não haviam ninguém no quintal ao lado, ele chegou o pequeno cômodo de dois metros quadrados com telhado de amianto e pegou o machado, voltou correndo e por pouco não foi visto por um dos vizinhos que entrava pelo corredor lateral da casa vizinha.

A escada deu mais trabalho do que imaginava, mas após quase dez minutos de esforço, Fabiano conseguiu separar o degrau mais alto do andar superior da casa, armou a escada de metal e subiu, recolhendo-a logo em seguida, estavam protegidos pela noite, e podiam dizer graças a isso.

Marcos estava com um olhar delirante e lhe deu uma pistola calibre 38.

- Se eu virar uma dessas coisas, e por um acaso ainda estiverem aqui, acabe comigo, não deixe minha filha me ver nessa situação e tente achar a mãe dela.

- Sim senhor – farei o que for necessário – também tenho quem encontrar lá fora.

- Eu vou entrar no meu quarto e trancar a porta por dentro, estou levando um pouco de comida e água para a noite, se acontecer algo comigo, duvido que consiga sair de lá, se sair, sabe o que fazer.

- Sim senhor.

- Obrigado Fabiano, e não faça nada de errado com minha filha. – ele sorriu.

- Sim senhor, espero te ver pela manhã.

- Eu também Fabiano, eu também.

Marcos fechou a porta. Fabiano foi ao quarto de Ana, ela estava deitada, aparentemente a febre voltara e sua cabeça doía.

- O que você e meu pai estavam conversando?

- Vamos esperar ate amanhã Ana, aí eu te conto – ele a beijou com carinho – dorme um pouco, eu vou ficar de olho lá embaixo.

Fabiano ficou a noite toda acordado olhando pela janela, certa hora as luzes dos postes apagaram-se, Fabiano não sabia, mas uma ambulância batera em um poste não muito longe dali, seu irmão estava nela, quebrou o braço e tinha escoriações no corpo todo, mas fora o único a sobreviver, Luciano era o nome dele, e por enquanto ele vai ficar dentro da ambulância desacordado, até que os gemidos de seus outros três tripulantes o acorde

Pouco antes das luzes se apagarem, o vizinho da frente da casa de Ana chegou, ele possuía uma dessas grandes SUVs importadas onde cabiam várias pessoas. Fabiano sabia que ele trabalhava para o governo, só não sabia o que ele fazia, não até aquele momento.

O homem desceu de seu carro e falou algo para alguém que estava dentro dele, outros dois homens desceram, eram grandes como ele, estavam vestidos com uniformes do exército, as luzes do carro começaram a atrair a atenção de alguns zumbis que estavam nas casas, o homem entrou ela porta da frente e os outros cobriam sua retaguarda com um fuzil cada.

Fabiano ouviu gritos indistintos, parecia o homem chamando por alguém, ouviu dois tiros e os homens se viraram para a porta, tempo o suficiente para não ver uma das criaturas chegar pelo canto da garagem e lhe morder o pescoço, o outro atirou nos dois, ele sabia o que estava acontecendo. O homem careca e grande que era dono da casa saiu com ar desolado, o soldado que restara do lado de fora lhe fez uma pergunta, ele balançou a cabeça em negativa.

Os tiros atraíram mais ainda a atenção das criaturas, vindas de cima e de baixo da rua, cerca de vinte ou trinta deles cercavam a casa, os dois homens dispararam alguns tiros, todos na cabeça das criaturas e entraram no carro, atropelando-os. O descuido com o qual fugiam ou atropelavam zumbis por vingança, os fez passar reto por um cruzamento e acertarem em cheio uma ambulância que capotou duas vezes antes de se chocar com um poste antigo e romper os cabos de energia que iam para os bairros.

Ana acordou e perguntou o que era a barulheira, Fabiano a acalmou e pediu para a namorada voltar a dormir, quando olhou par fora, o soldado não estava mais no gramado da frente, a luz da lua apenas iluminava uma mancha de sangue onde seu corpo estivera, e ela brilhava estranhamente naquela noite de maus finais.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Paraíso Perdido Parte II - Capítulo 1 - I just called.... Parte 1

- Alô?

- Oi, sou eu, tudo bom?

- Tudo, você ta melhor?

- To sim, a febre baixou e minha garganta não ta mais raspando. Como foi a prova de geografia?

- Foi tranqüila, mais perguntas sobre um povo que eu nem tenho interesse de conhecer e que mora em um lugar que eu nunca vou ver...

- Falando assim até parece fácil..

- E é, são só dados, nada que a gente realmente se importe, quando a gente se importa e tem envolvimento fica mais difícil. Você ta sozinha?

- Aham, minha mãe ta no hospital e meu pai foi no mercado.

- Mais tarde eu dou um pulo aí, to terminando de assistir uma série aqui no computador. Opa, isso não pode ser verdade..

- O quê?

- Um vídeo enviado pela internet, acho que é na China, uma multidão correndo desesperada e a polícia abrindo fogo contra todos, mas no meio deles, alguns só se arrastam, e mesmo com os tiros eles continuam andando, opa, ai... Um policial acertou uma pessoa na cabeça, essas que estavam se arrastando, só assim ela caiu, Deus do céu, não pode ser isso...

- Meu computador ta lá no quarto, to com preguiça de subir, mas você está me assustando, vou lá dar uma olhada.

- Calma aí. Antes disso confere se as portas estão fechadas, acabei de ver um vídeo agora que me deixou tonto, é um vídeo de celular, gavetas de necrotério tremendo e mortos saindo delas, sem braço, com vários tiros no peito.

- Deve ser algum merchandising de filme, você sabe que quando tem um filme bom pra sair eles atacam de todas as maneiras.

- Você não ta entendendo, o necrotério é aqui na cidade e o vídeo quem fez foi meu irmão, ele foi lá hoje de tarde com a faculdade, falou que a situação nas ruas não é das melhores e que ele tem certeza que viu o Vicente zelador do prédio estourando a cabeça do Josuel da padaria com um pedaço de pau.

- Não é possível...

-Confere as portas por favor e sobe pro seu quarto, liga a TV, computador ou o que puder, ta todo mundo maluco.

- Mas meu pai, minha mãe, eles estão lá fora, isso não pode ser verdade. Cheguei no meu quarto, Ai... ouvi um barulho lá fora, parece o carro do meu pai..

- Toma cuidado..

- Ele bateu em outro carro, o carro do Geraldo, ele ta imóvel dentro do carro, meu pai saiu do carro possesso, gritando e xingando o Geraldo, Ai meu Deus, o Geraldo tá estranho, a camisa dele ta toda ensangüentada, e ele ta arrastando o pé, não andando.. PAI, SAI DAÍ, VEM PRA DENTRO!!!, to descendo, acho que meu pai me ouviu, vou abrir a porta e trancar.

- Calma, to indo aí, em dois minutos eu chego...

- Não desliga o telefone que eu também não vou desligar, vou entrar pelos fundos.

- Ai meu Deus, meu pai levou uma mordida no ombro, funda demais. Ta doendo Pai? - Ta doendo pra caramba, esse filho da puta do Geraldo só pode estar maluco, primeiro entra na frente do meu carro, depois me morde. Quem ta no telefone? – É o Fabiano, ele ta me dizendo que ta todo mundo maluco mesmo...

- Ana, Aninha, passa o telefone pro seu pai, tá me ouvindo Ana?

- Tô sim, pera aí. Pai o Fá quer falar com você.

- Alô, Oi Fabiano, tudo bom? Eu tô puto da vida e com uma dor insuportável no braço, o lazarento do Geraldo abriu um buraco no meu ombro, o quê? Ligar a televisão? Tô ligando. Vixe Maria, Ana, fecha as portas e as janelas, o Fabiano tá na porta da cozinha, liga pra sua mãe, depois você vem aqui ver a televisão comigo.

Fabiano entrou e logo trancou a porta atrás dele, deu um beijo leve em Ana e a ajudou a fechar as janelas.

- O Geraldo ta na entrada da cozinha dele e eu tenho quase certeza que ele estava comendo a perna do Geraldinho, no caminho pra cá eu vi umas coisas muito estranhas, meu irmão não quis vir, ele tava tentando falar com minha mãe, mas ninguém do hotel onde ela está hospedada atende o telefone.

- Consegui falar com minha mãe, ela vai ficar no plantão a noite toda e só volta amanhã de manhã, mas ela falou para não saírmos de casa.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Paraíso Perdido - Parte II - As Crônicas dos Mortos

Logo que as coisas começaram a dar errado, Helena soube o que precisava fazer. No cenário caótico que se desenvolveu naquele final de outono, suas habilidades caíram como uma luva, suas posses também.

Quando Helena nasceu não havia a maravilha do ultrassom, seu pai estava crente que teria um varão, o quarto do novo bebê era azul, vários carrinhos e brinquedinhos de menino compunham o cenário. Mas nasceu Helena, incontestavelmente uma menina, e a beleza da pequena fez o pai se desmanchar e em menos de 1 hora mudar todo o quarto, exceto por um brinquedo, o móbile de carrinhos acalmava a menina. Conforme ela ia crescendo o pai percebia a mesma seriedade e destreza que possuíra na infância e quando a menina completou dez anos ele lhe deu uma espingarda de chumbinho e Helena começou a praticar. Aos vinte anos foi campeã sul-americana de tiro e se preparava para as olimpíadas que aconteceriam no ano em que o mundo mudou.

Helena cresceu envolta em armas e munição, a família era dona de uma loja/clube de tiro e sua casa vivia abarrotada de armas desmontadas e cápsulas, o apartamento que dividia somente com o pai desde que a mãe morrera no ano anterior possuía um cômodo exclusivo para o arsenal.

Na manhã do dia vinte de maio, seu pai saiu para comprar pão, e não voltou. Não voltaram também o Sr. Afonso do 312, a D. Antônia do 145, Rafaela, que saíra para trabalhar, residente no apartamento vizinho a Helena, o 323. Outros tantos não foram mais vistos, alguns deles sim, mas só por Helena, por poucos segundos, o suficiente para que fossem obliterados completamente. A idéia de escrever as memórias daqueles que partiram veio da vontade de contar as outras pessoas que Rafaela era uma moça gentil, séria e honesta, já que dado seu desaparecimento, poucas pessoas se lembravam da mulher que morava no condomínio há pelo menos cinco anos. Assim surgiam as crônicas dos mortos, título dado por Helena ao pequeno caderno de anotações que usava para registrar e prestar uma última homenagem àquelas pessoas que não voltaram.