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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Prólogo II – Learn to Fly

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Isso ocorreu no ano que precedeu o fim.

A sala estava lotada, muito comum nos últimos dias de aula, mais comum no ultimo ano do ensino médio, ninguém queria ter de freqüentar a recuperação no período das férias, férias eternas da escola para alguns, o descanso merecido para outros que assim como Gabriel, se aventurariam no vestibular e com certeza, ele pelo menos, estariam sentados em outra sala de aula ano que vem, numa universidade.

Por longos onze anos Gabriel agüentou as encheções de saco de seus “colegas” de escola, muitas delas violentas e outras apenas ofensas de nível primário, espinhudo, quatro olhos, narigudo, nerd, Olívia Palito eram alguns de seus pseudônimos, logo isso acabaria, e ele finalmente se veria livre. Se o destino dele fosse diferente e permanecesse este garoto, no próximo ano ele perceberia que os valentões, bonitões e queridinhos da escola, são os primeiros a desandarem no “mundo real” a escola nos tira a percepção do que realmente somos, é como estar imerso em uma piscina, por tempo demais, quando saímos percebemos que não somos tão leves como éramos lá dentro.

Faltando alguns segundos para o sinal do término da aula Gabriel sentiu um peso no estômago, sua pele ficou fria e as costas começaram a arder, como se a estivessem cortando, dos ombros até a espinha, com ferro quente, se debruçou na carteira e ali ficou. Gabriel nunca olharia para o passado como humano, daqui a exatos trinta minutos, toda a percepção que possuíra seria alterada pela real verdade, aquela que juram não existir.

“Ele” chegou à escola e sabia que ali teria de matar a todos, alguém dali precisava morrer e rápido, sem tempo para lembranças, “ele” foi escolhido por ser o mais indicado para o serviço, e não queria perder tempo examinando cada centímetro daquele local que cheirava a juventude, um massacre era mais a sua cara, era isso que fazia seu emprego divertido, isso que o fizera se tornar o que era, muitos haviam estado no seu lugar antigamente, usando o mesmo nome, a TV, cinema, literatura, até o próprio livro santo conheciam seu nome, não seu verdadeiro, mas o nome teatral que confundia a mente de todos e denotava poder a seus feitos, “somos muitos” a verdade era quase esta, foram muitos, um de cada vez, cada época com seu carniceiro em especial, cada época com a máscara que mais amedrontava os pobre mortais, no fim das contas era mais um, talvez o pior deles, até o próximo que tomaria seu lugar.

Entrou na escola e teve de se segurar diante a náusea de um lugar tão iluminado e alegre, havia maldade também ali, bastante, via auras negras através das paredes, mas a maioria era de luz, crianças comuns, deduziu que no térreo ficava a creche, a primeira, segunda e terceira séries, dificilmente alguma criança mantém esta luz por muito tempo, o mundo toma conta de ofuscar um pouco de seu brilho, na maioria das vezes, através de alguns pais e mães.

Ninguém o via, mas o faxineiro e a inspetora de alunos que passaram pelo corredor onde andava tiveram a pior sensação de suas vidas, “ele” seguiu o corredor e subiu as escadas, pouca luz no primeiro andar, a maioria já estava corrompida, não que isso significasse pura maldade, mas a corrosão de uma alma, na maioria das vezes não a torna ruim, apenas sem brilho, apenas um lampejo cinza de uma vida sem sonhos, mas a única coisa que basta para o mal triunfar é alguém de bem não fazer nada, não é?

No segundo e ultimo andar “ele” teve de se concentrar, não precisou de muito tempo para descobrir quem teria que matar. Sempre gostara dos segundos que antecediam o inicio da matança, ela não durava mais que 5 minutos, e no final, o cheiro doce do sangue, o silencio após os gritos de agonia e dor, o embriagavam como nenhuma droga já havia feito. Se aproximou da sala de aula, olhou pela pequena janela na porta e parou por um instante, só agora entendera a dificuldade de sua missão.

Dentro da sala, entre várias carteiras viradas e jovens em círculos estava Gabriel, ajoelhado a sua frente um rapaz alto e forte, duas vezes maior que o garoto franzino no chão, a professora estava num canto acuada e não fazia nada, olhou pela janela e o enxergou, claro que o enxergou, não conseguia fazer nada em forma de espírito, tinha de materializar, e naquele ponto, na eminência do ataque que deveria ser surpresa, só um cego não veria. Olhou novamente para o centro da sala, a luz que vinha dali era ofuscante. Entrou na sala, sacou o punhal e avançou, seu golpe foi rápido, e em dois movimentos o coração do garoto estava em suas mãos.

Quando Gabriel se deitou na carteira, sua omoplata parecia querer sair através da pele, sabia que não devia ter se esforçado tanto na aula de educação física, não devia nem praticar qualquer esporte, mas a dor não era só essa, e já havia sentido anteriormente tudo o que o atormentava naquela tarde de dezembro, nunca era bom sinal, sempre que a pele dele gelava daquela maneira alguma coisa ruim acontecia, o acidente que matou o pai, alguns incêndios perto das casas, e foram várias, que morou nestes quase dezoito anos de vida, tudo após aquelas dores. A dor não passava e isso o irritava.

- Gabriel – disse a professora, sua voz esganiçada era inconfundível – leia a página trinta do livro de história.

Não conseguia se mexer, a voz da professora parecia vir de muito longe e as dores que agora varavam seu estomago eram muito fortes para que pudesse pensar em mais alguma coisa que não fosse sofrer.

- Gabriel, eu falei com você – novamente a voz de taquara rachada – quer que eu te mande para a diretoria, pois eu mando, você é um excelente aluno, mas eu não tolero falta de educação.

- Acorda quatro olhos, ficou surdo além de cego – seguido de várias risadas e outros xingamentos.

- Vamos seu maricas, levanta daí.

Uma mão caiu em seu ombro, a dor quase explodiu sua cabeça, num movimento involuntário retirou a mão e empurrou seu dono, péssima idéia, era Henrique.

Henrique era o tipo de rapaz com quem não se brincava, nem por brincadeira mesmo, seu cérebro só comandava suas funções de sobrevivência, era forte, e burro, muito forte e muito burro, mas em seu mundo, o mundo onde todos o temiam, nunca ocorreu, nem no mais impossível sonho, ser empurrado por Gabriel, tanto que ficou apenas olhando para o garoto, até que o que tinha acontecido houvesse se solidificado em sua cabeça.

Neste momento todos os alunos em volta haviam se retirado e dado espaço para o show, Gabriel continuava debruçado seu braço direito voltara ao ventre, ninguém via a chama que ardia em seus olhos.

- Acho que hoje você vai morrer seu nerd de merda, hoje não tem quem te salve, nem Deus.

Com as duas mãos Henrique levantou Gabriel e o atirou na parede, como se atirasse um saco de pano, as costas do menino bateram na parede e a dor, que só aumentava chegou ao seu ponto máximo, isto o despertou, para tudo.

Ajoelhado no chão, com muita dor ainda, Gabriel olhou para cima e viu Henrique bufando, notou que um homem alto e estranho entrou na sala, notou que todos os que estavam em volta pareciam mais fracos, mais humanos, sentiu que a professora morreria logo por um câncer no estomago, coisa que ele nem sabia, percebeu que lá fora um pássaro acabara de mergulhar para pegar seu alimento no gramado, grilo ou louva-a-deus quem sabe, o homem, que não era um homem, mas sim um “deles”, não sabia como, mas era assim que sua mente se referiu ao esguio de cabelos negros oleosos que se aproximava por trás de Henrique e que tinha algo que brilhava muito em sua mão esquerda. Suas costelas pareciam estar crescendo dentro do corpo e de um instante sua dor parecia sumir, sentiu uma ultima pontada nas costas, perto do pescoço e a paz veio.

Na opinião da professora aquela briga daria em algo muito feio, quando tipos como Henrique, fortes e burros, se metiam a bater em franzinos e fracos, inteligentes, mas ainda assim vulneráveis fisicamente como Gabriel, tudo de pior acontecia, mães viriam no outro dia, pais viriam no outro dia, providencias precisariam ser tomadas e caso o ano não estivesse no fim, Gabriel teria de ser esperto e correr na hora da saída, pois fora da escola, ninguém o protegeria da vingança infantil e cruel de Henrique.

Por um segundo sua atenção foi para o homem na porta, o estranho homem que olhava para dentro da sala pela janelinha, seu olhar a fazia ter a sensação de mil invernos e ferro em brasa nas entranhas, caso soubesse da dor que Gabriel experimentava, saberia que isso seriam cócegas para o menino. O homem entrou na sala e as luzes escureceram, no momento achou que sua pressão caia e que desmaiaria, mas as luzes escureceram realmente, o homem sacou algo brilhante, levantou no ar e a professora viu o que era, linhas vermelhas brilhavam na lâmina, num movimento rápido o homem cortou duas vezes o ar e sangue espirrou, nada que ela vivenciou em seus quase sessenta anos poderiam lhe preparar para os próximos minutos de sua vida.

Lílian via Gabriel no chão e não podia fazer nada para ajudá-lo, era uma moça forte, mas nem se comparava a montanha que era Henrique, seu melhor amigo continuava caído no chão e gritava de dor, como se esticassem sua pele e o suspendessem por ganchos como naquele filme Hellraiser que vira com o irmão mais velho quando era criança, a imagem nunca abandonou sua mente e era sua referencia de dor absoluta, isso seria um carinho para Gabriel.

De repente tudo se silenciou, Gabriel não mais gritava e a camiseta do Manowar de Henrique estava ensopada de algo que era difícil de identificar devido a sua cor preta, um homem estava logo atrás dele, Lílian não notara sua chegada, mas se sentiu mal em lhe dirigir o olhar, Gabriel continuava em silencio e finalmente olhou para cima.

Na antiguidade era muito comum a visão de seres que promoviam tanto o mal como o bem, os bons jamais apareciam em situações normais e geralmente só se faziam ver por olhos mortais quando os ruins promoviam o caos e a destruição, alguns os viam quando Deus, e mais antigamente os deuses, precisavam passar mensagens aos humanos, com o tempo, assim como em vários mundos, desde a base da Torre, os homens começaram a racionalizar demais seu universo e esquecer da magia e destas criaturas, dos dois tipos delas, a elas eram atribuídas outras funções, mais simples e menos respeitosas que as de antigamente, assim o homem transformou-os em parte da mitologia religiosa, e do folclore sobrenatural do mundo.

Dois feixes de luz saíram das costas de Gabriel, e a dor que parecia infinita se tornou algo imperceptível, seus olhos arderam em chamas multicor e sua pele em fogo, mas nada disso doeu, várias imagens passaram por usa cabeça, milhares de anos num piscar de olhos, guerras, batalhas, humanas e divinas, do big-bang até aquele segundo, atingiu toda a plenitude de seu raciocínio e se deliciou em diversas conexões neurais de prazer, em árabe, turco, russo, inglês, português, espanhol, italiano, francês, alemão, japonês, e todas as línguas do mundo, vivas e mortas, do céu e do inferno, sentia tudo ao seu redor a nível molecular, poderia escolher um átomo de oxigênio e ver dentro dos seu núcleo os pequenos universos que ali existiam.

As carteiras se afastaram e uma redoma de luz os cercou, Gabriel, Henrique e o homem misterioso. Quem ficou de fora viu pouco do que aconteceu, o homem misterioso não viu nada.

Os feixes de luz nas costas de Gabriel se avolumaram e começaram a tomar forma, sua mão direita brilhou e esta luz se alongou até se tornar um fino fio, outros raios se esticaram também e começaram a tecer algo, Gabriel se levantou e agachou-se de novo, como espuma asas brotaram em suas costas e quando se levantou, belas e macias penas brancas as cobriam, se arrastavam no chão, em sua mão uma lança apareceu, a lança que certa vez bebeu o sangue do homem mais santo do mundo e que fora abençoada pelo poder da água da vida que de lá brotou, num movimento simples e extremamente rápido Gabriel perfurou o corpo de Henrique, que ainda permanecia ereto, varou seu coração e acertou o homem que o segurava, ao recolher a lança o coração de Henrique lhe foi devolvido e o sangue que uma vez circulou pelo corpo mortal do filho de Deus, lhe devolveu a vida, para o homem esguio de cabelos negros só restou a morte a eternidade de sofrimento vagando pelo mundo sem direito a por o pé no chão firme, assim como foram condenados todos antes dele.

Um segundo, ou dois, não mais que três, a luz abandonou o centro da sala, Gabriel olhou para Henrique que estava em torpor ainda:

- Todos os seres de Deus merecem a vida, mesmo que estes não valham um nada, você é novo ainda, pode mudar, aproveite este milagre e mude.

Henrique continuava olhando para o menino em que daria uma surra há menos de dez segundos, nunca, pelo resto da sua vida esqueceria o que vira naqueles olhos por trás dos óculos, vira ódio, raiva, justiça, mas também vira compreensão, vira bem e podia jurar, de pés juntos e que a mãe dele morresse naquele instante, que vira amor, mesmo por ele, compreendeu naquele instante o que o garoto era e tudo o que deixara de acreditar quando o pai morreu fez sentido.

- Desculpe-me Senhor – o menino se ajoelhou e chorava, todos na sala pareciam diferentes, mais humanos, mais tementes – prometo nunca mais fazer nada do que fazia.

- Eu não sou Senhor, mas fui enviado por ele, faça o que tem de fazer, não é a mim que você deve explicações, apenas faça o que tem de fazer, no juízo, e acho que eu estando aqui, desperto como estou, ele está mais próximo do que nunca, você acertará suas contas.

A voz era de Gabriel, mas ao mesmo tempo não era, por trás da tonalidade doce do menino algo mais falava, algo que não podia ser ignorado, talvez fosse a própria voz de Deus, e era difícil não tentar fazer exatamente o que o garoto dizia, mesmo que fosse tirar a própria vida, por um instante a professora entendeu o que Abraão sentira e não o culpou por isso.

As asas se desfizeram em luz, Gabriel, que tinha todos os motivos do mundo para ter este nome, continuou em pé a Lança de Longinus desapareceu, a chama em seus olhos também, mas ele continuava sendo quem era, continuava se lembrando de tudo e soube naquele instante que teria de encontrar os outros, algo ia errado, muito errado, era fim de ano, e toda virada do ano prometia algo novo, o que não era necessariamente bom.

Todos continuavam olhando embasbacados para o franzino garoto, alguns não entendiam o que havia acontecido, outros como Lílian sabiam perfeitamente, a garota sempre soube que o menino possuía algo diferente, algo que a acalmava e confortava com a simples presença, e mesmo a despeito do que sentia por Gabriel, sabia que não era a única a perceber isso, sabia que meninos como Henrique, que eram de mal com a vida, se irritavam com a presença de pessoas que têm tudo para ser como eles, mas que se mantêm serenas e dispostas a ajudar os outros, enfim sempre soube que o garoto que amava era um anjo.


Um comentário:

Tata disse...

Eu acredito fielmente nisso: no fundo tudo o que a pessoa má, burra e arrogante quer é ser como o "nerd" que tem paciência, que cativa, que não tem preguiça, que estuda, que trabalha e assim vai...

Gostei dessa parte. Mostrou melhor o lado "sujo" das pessoas, o real caráter, a real vontade, a questão da pureza que vai ficando mais fina a cada dia que passa... e que afina cada vez mais rápido.

Assim como cada época teve o Messias que merecia, cada época tem o mal que merece.