Por longos onze anos Gabriel agüentou as encheções de saco de seus “colegas” de escola, muitas delas violentas e outras apenas ofensas de nível primário, espinhudo, quatro olhos, narigudo, nerd, Olívia Palito eram alguns de seus pseudônimos, logo isso acabaria, e ele finalmente se veria livre. Se o destino dele fosse diferente e permanecesse este garoto, no próximo ano ele perceberia que os valentões, bonitões e queridinhos da escola, são os primeiros a desandarem no “mundo real” a escola nos tira a percepção do que realmente somos, é como estar imerso em uma piscina, por tempo demais, quando saímos percebemos que não somos tão leves como éramos lá dentro.
Faltando alguns segundos para o sinal do término da aula Gabriel sentiu um peso no estômago, sua pele ficou fria e as costas começaram a arder, como se a estivessem cortando, dos ombros até a espinha, com ferro quente, se debruçou na carteira e ali ficou. Gabriel nunca olharia para o passado como humano, daqui a exatos trinta minutos, toda a percepção que possuíra seria alterada pela real verdade, aquela que juram não existir.
Entrou na escola e teve de se segurar diante a náusea de um lugar tão iluminado e alegre, havia maldade também ali, bastante, via auras negras através das paredes, mas a maioria era de luz, crianças comuns, deduziu que no térreo ficava a creche, a primeira, segunda e terceira séries, dificilmente alguma criança mantém esta luz por muito tempo, o mundo toma conta de ofuscar um pouco de seu brilho, na maioria das vezes, através de alguns pais e mães.
Ninguém o via, mas o faxineiro e a inspetora de alunos que passaram pelo corredor onde andava tiveram a pior sensação de suas vidas, “ele” seguiu o corredor e subiu as escadas, pouca luz no primeiro andar, a maioria já estava corrompida, não que isso significasse pura maldade, mas a corrosão de uma alma, na maioria das vezes não a torna ruim, apenas sem brilho, apenas um lampejo cinza de uma vida sem sonhos, mas a única coisa que basta para o mal triunfar é alguém de bem não fazer nada, não é?
No segundo e ultimo andar “ele” teve de se concentrar, não precisou de muito tempo para descobrir quem teria que matar. Sempre gostara dos segundos que antecediam o inicio da matança, ela não durava mais que 5 minutos, e no final, o cheiro doce do sangue, o silencio após os gritos de agonia e dor, o embriagavam como nenhuma droga já havia feito. Se aproximou da sala de aula, olhou pela pequena janela na porta e parou por um instante, só agora entendera a dificuldade de sua missão.
Dentro da sala, entre várias carteiras viradas e jovens em círculos estava Gabriel, ajoelhado a sua frente um rapaz alto e forte, duas vezes maior que o garoto franzino no chão, a professora estava num canto acuada e não fazia nada, olhou pela janela e o enxergou, claro que o enxergou, não conseguia fazer nada em forma de espírito, tinha de materializar, e naquele ponto, na eminência do ataque que deveria ser surpresa, só um cego não veria. Olhou novamente para o centro da sala, a luz que vinha dali era ofuscante. Entrou na sala, sacou o punhal e avançou, seu golpe foi rápido, e em dois movimentos o coração do garoto estava em suas mãos.
- Gabriel – disse a professora, sua voz esganiçada era inconfundível – leia a página trinta do livro de história.
Não conseguia se mexer, a voz da professora parecia vir de muito longe e as dores que agora varavam seu estomago eram muito fortes para que pudesse pensar em mais alguma coisa que não fosse sofrer.
- Gabriel, eu falei com você – novamente a voz de taquara rachada – quer que eu te mande para a diretoria, pois eu mando, você é um excelente aluno, mas eu não tolero falta de educação.
- Acorda quatro olhos, ficou surdo além de cego – seguido de várias risadas e outros xingamentos.
- Vamos seu maricas, levanta daí.
Uma mão caiu em seu ombro, a dor quase explodiu sua cabeça, num movimento involuntário retirou a mão e empurrou seu dono, péssima idéia, era Henrique.
Henrique era o tipo de rapaz com quem não se brincava, nem por brincadeira mesmo, seu cérebro só comandava suas funções de sobrevivência, era forte, e burro, muito forte e muito burro, mas em seu mundo, o mundo onde todos o temiam, nunca ocorreu, nem no mais impossível sonho, ser empurrado por Gabriel, tanto que ficou apenas olhando para o garoto, até que o que tinha acontecido houvesse se solidificado em sua cabeça.
Neste momento todos os alunos em volta haviam se retirado e dado espaço para o show, Gabriel continuava debruçado seu braço direito voltara ao ventre, ninguém via a chama que ardia em seus olhos.
- Acho que hoje você vai morrer seu nerd de merda, hoje não tem quem te salve, nem Deus.
Com as duas mãos Henrique levantou Gabriel e o atirou na parede, como se atirasse um saco de pano, as costas do menino bateram na parede e a dor, que só aumentava chegou ao seu ponto máximo, isto o despertou, para tudo.
Ajoelhado no chão, com muita dor ainda, Gabriel olhou para cima e viu Henrique bufando, notou que um homem alto e estranho entrou na sala, notou que todos os que estavam em volta pareciam mais fracos, mais humanos, sentiu que a professora morreria logo por um câncer no estomago, coisa que ele nem sabia, percebeu que lá fora um pássaro acabara de mergulhar para pegar seu alimento no gramado, grilo ou louva-a-deus quem sabe, o homem, que não era um homem, mas sim um “deles”, não sabia como, mas era assim que sua mente se referiu ao esguio de cabelos negros oleosos que se aproximava por trás de Henrique e que tinha algo que brilhava muito em sua mão esquerda. Suas costelas pareciam estar crescendo dentro do corpo e de um instante sua dor parecia sumir, sentiu uma ultima pontada nas costas, perto do pescoço e a paz veio.
Por um segundo sua atenção foi para o homem na porta, o estranho homem que olhava para dentro da sala pela janelinha, seu olhar a fazia ter a sensação de mil invernos e ferro em brasa nas entranhas, caso soubesse da dor que Gabriel experimentava, saberia que isso seriam cócegas para o menino. O homem entrou na sala e as luzes escureceram, no momento achou que sua pressão caia e que desmaiaria, mas as luzes escureceram realmente, o homem sacou algo brilhante, levantou no ar e a professora viu o que era, linhas vermelhas brilhavam na lâmina, num movimento rápido o homem cortou duas vezes o ar e sangue espirrou, nada que ela vivenciou em seus quase sessenta anos poderiam lhe preparar para os próximos minutos de sua vida.
De repente tudo se silenciou, Gabriel não mais gritava e a camiseta do Manowar de Henrique estava ensopada de algo que era difícil de identificar devido a sua cor preta, um homem estava logo atrás dele, Lílian não notara sua chegada, mas se sentiu mal em lhe dirigir o olhar, Gabriel continuava em silencio e finalmente olhou para cima.
Dois feixes de luz saíram das costas de Gabriel, e a dor que parecia infinita se tornou algo imperceptível, seus olhos arderam em chamas multicor e sua pele em fogo, mas nada disso doeu, várias imagens passaram por usa cabeça, milhares de anos num piscar de olhos, guerras, batalhas, humanas e divinas, do big-bang até aquele segundo, atingiu toda a plenitude de seu raciocínio e se deliciou em diversas conexões neurais de prazer, em árabe, turco, russo, inglês, português, espanhol, italiano, francês, alemão, japonês, e todas as línguas do mundo, vivas e mortas, do céu e do inferno, sentia tudo ao seu redor a nível molecular, poderia escolher um átomo de oxigênio e ver dentro dos seu núcleo os pequenos universos que ali existiam.
- Todos os seres de Deus merecem a vida, mesmo que estes não valham um nada, você é novo ainda, pode mudar, aproveite este milagre e mude.
Henrique continuava olhando para o menino em que daria uma surra há menos de dez segundos, nunca, pelo resto da sua vida esqueceria o que vira naqueles olhos por trás dos óculos, vira ódio, raiva, justiça, mas também vira compreensão, vira bem e podia jurar, de pés juntos e que a mãe dele morresse naquele instante, que vira amor, mesmo por ele, compreendeu naquele instante o que o garoto era e tudo o que deixara de acreditar quando o pai morreu fez sentido.
- Desculpe-me Senhor – o menino se ajoelhou e chorava, todos na sala pareciam diferentes, mais humanos, mais tementes – prometo nunca mais fazer nada do que fazia.
- Eu não sou Senhor, mas fui enviado por ele, faça o que tem de fazer, não é a mim que você deve explicações, apenas faça o que tem de fazer, no juízo, e acho que eu estando aqui, desperto como estou, ele está mais próximo do que nunca, você acertará suas contas.
A voz era de Gabriel, mas ao mesmo tempo não era, por trás da tonalidade doce do menino algo mais falava, algo que não podia ser ignorado, talvez fosse a própria voz de Deus, e era difícil não tentar fazer exatamente o que o garoto dizia, mesmo que fosse tirar a própria vida, por um instante a professora entendeu o que Abraão sentira e não o culpou por isso.
As asas se desfizeram em luz, Gabriel, que tinha todos os motivos do mundo para ter este nome, continuou em pé a Lança de Longinus desapareceu, a chama em seus olhos também, mas ele continuava sendo quem era, continuava se lembrando de tudo e soube naquele instante que teria de encontrar os outros, algo ia errado, muito errado, era fim de ano, e toda virada do ano prometia algo novo, o que não era necessariamente bom.
Todos continuavam olhando embasbacados para o franzino garoto, alguns não entendiam o que havia acontecido, outros como Lílian sabiam perfeitamente, a garota sempre soube que o menino possuía algo diferente, algo que a acalmava e confortava com a simples presença, e mesmo a despeito do que sentia por Gabriel, sabia que não era a única a perceber isso, sabia que meninos como Henrique, que eram de mal com a vida, se irritavam com a presença de pessoas que têm tudo para ser como eles, mas que se mantêm serenas e dispostas a ajudar os outros, enfim sempre soube que o garoto que amava era um anjo.
Um comentário:
Eu acredito fielmente nisso: no fundo tudo o que a pessoa má, burra e arrogante quer é ser como o "nerd" que tem paciência, que cativa, que não tem preguiça, que estuda, que trabalha e assim vai...
Gostei dessa parte. Mostrou melhor o lado "sujo" das pessoas, o real caráter, a real vontade, a questão da pureza que vai ficando mais fina a cada dia que passa... e que afina cada vez mais rápido.
Assim como cada época teve o Messias que merecia, cada época tem o mal que merece.
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