Talvez morrer não fosse tão fácil como achava que seria, um tiro na cabeça teria sido mais eficaz, mas infelizmente em muitos casos, não neste em específico, a clareza do pensamento vem apenas na derradeira hora, talvez essa clareza dissesse a Julio que seria melhor não se matar, e que a vida por mais difícil sempre compensa mais que uma fuga covarde.
Mas ele não morreu, nem pelo veneno de rato, nem pelo de formigas, não morreu pelo corte nos pulsos e nem pela eletrocução na banheira, alguém ou algo, “algo” era mais provável, não queira que ele batesse as botas. Julio se lavou, o estomago ainda doía, o pulso ainda sangrava e os cabelos ainda pareciam exalar a fumaça do choque. Julio não tentou o tiro na cabeça, pois estava cansado de tudo aquilo, que diabo de vida era aquela que ele mesmo não podia acabar? Que diabo de Deus ou o próprio diabo deixaria alguém assim semi-vivo. Seria por capricho? O estado de clareza em que estava lhe devolveu apenas uma resposta. “Não foi sempre assim sua vida?” e ele sabia que a pergunta era retórica
Saiu do quarto e por um momento pensou estar realmente morto, sua mãe estava no fogão, a despeito de toda a dor em seu corpo e do fato da mãe estar morta desde que Julio estava na quinta série, quinze anos antes, Dona Norma preparava o almoço, deveria ser isso, pelo menos àquela hora.
- Deveria estar com vergonha mocinho – disse sem se virar – que educação eu te dei para que você fizesse uma besteira dessas?
Não achou estranho a mãe estar ali, não mesmo, apenas interessante, se a mãe realmente estivesse ali, poderia dizer se estava morto, ou não estava, ela continuou, como que lendo os pensamentos do filho.
- Você não está morto, mas não está vivo também, a besteira que acabou de fazer é pior que se tivesse morrido lá fora, e fico realmente triste por isso, gostaria de te encontrar ainda, mas não desse jeito que estamos agora, gostaria de te abraçar, mas não posso...
- Não estou entendendo mãe, não entendo nada, o que aconteceu? - se aproximou da mãe, mas foi impedido por uma aura dourada – o que eu fiz?
-Você realmente não se lembra? – se virou e encarou o filho, o que assustou um pouco Julio já que no lugar dos olhos da mãe ardiam duas chamas muito vivas, vermelhas, alaranjadas, amarelas, e quentes. – olhe no espelho, e eu te explico.
Julio se virou, havia um espelho no mini hall de entrada do apartamento que ficara pra ele quando a mãe morreu, e não entendeu como enxergava tudo isso, pois não via olhos em sua face.
- As chamas em meus olhos dizem que tipo de criatura eu sou aos olhos de Deus meu filho, a falta delas nos seus também – ela se dirigiu a Julio mas parou a cerca de dois metros do filho - você realmente achou que podia tirar sua vida quando quisesse? Realmente achou que teria paz cometendo algo tão mundano assim?
- Eu consegui então? Consegui me matar? – passou a mão na cabeça num gesto inconsciente de perplexidade, a mãe reconheceu bem aquilo – mas porque estou aqui ainda?
- Porque é aqui que os suicidas ficam meu filho, na terra, ele não vão nem para o céu, nem para o inferno, sequer passam pelo purgatório, vivem sua eternidade sofrendo das dores que causaram a si próprios, e as suas almas, quando expurgaram a vida do corpo.
- Mas eu tenho meu corpo ainda, minha alma ficou presa ao meu corpo, por quê?
- Você já não sai de casa a mais de uma semana – disse Dona Norma – as coisas estão calamitosas lá fora.
Julio não pode deixar de pensar, com um arrepio, que a morte deixara o vocabulário da mãe muito mais elaborado e conciso
– Pelo que sei – continuou - as portas do céu e do inferno estão fechadas para quem quer entrar, mas totalmente abertas pra quem quer sair, por isso vim aqui, acho que é o Juízo...
- Então eu sou um morto com alma? – Julio se sentou, a cabeça entre as mãos em outro gesto que Dona Norma reconheceu, esse demonstrava desespero – Como é possível, tudo isso deve ser uma alucinação provocada pelo choque... Só pode ser.
- Infelizmente não sei mais do que possa lhe dizer filho, apenas mais uma coisinha, procure o padre Josué, na matriz, acho que ele poderá te ajudar – dito isso ela desapareceu.
Julio demorou a se levantar, e quando o fez notou que havia uma rigidez em seus membros, o cabelo onde passou as mãos estava seco, parecendo palha, a oleosidade sumira, se olhou mais uma vez no espelho e não pode deixar de se assustar.
Destrancou a porta com grande esforço, seus dedos pareciam dormentes e perdera a sensibilidade por completo, foi difícil descer os seis lances de escada naquele estado, o elevador não funcionava, e os corredores do condomínio estavam vazios e silenciosos. Chegou até a portaria do prédio e parou por um instante, mesmo com medo de não conseguir se mover novamente, se ainda respirasse com certeza soltaria um suspiro, o céu estava azul de um jeito que nunca vira antes, pôde ver nuvens no céu, poucas nuvens brancas e fofas passeando no azul, Julio achou tudo lindo, até ouvir o primeiro grito vindo da rua.
O grito é o recurso final de qualquer criatura, é como se gritando os seres vivos possam desviar a atenção do que vêem ou sentem, o grito que Julio ouviu era agudo e aquoso, e ele sentiu pela primeira vez que não era só desvantagem se tornar o que se tornara, pode perceber, como se olhasse diretamente com seus ausentes olhos, a criatura que emitira o grito, ele ficou parado por mais um tempo, a visão fora o bastante para fazê-lo querer poder correr, vira uma boca sangrenta e uma garganta cortada, sangue vertia do corte e em seguida a cabeça caíra no chão, era o dono do depósito de gás que ficava na esquina do condomínio, e parecia já estar morto antes mesmo de sua cabeça ter sido separada do corpo por um homem, um pouco mais novo que ele, empunhando uma espada de samurai, buscou em sua mente o nome da arma, conhecia o nome, mas ele lhe fugira de ultima hora, como um mosquito que tentamos matar com as mãos.
Julio se moveu novamente, mais um tropeço atrás do outro do que propriamente um andar normal, saiu pela rua lateral do condomínio, uma rua sem saída que terminava na ferrovia, e se dirigiu até a rua onde vira (ou sentira) o jovem com a espada de samurai. Ouviu mais dois ataques, duas das criaturas foram para cima do garoto, captou um pensamento... Namorados... não entendeu por completo mas achou estranho, o rapaz eliminara os dois como fizera com o primeiro, o que o fez pensar em um filme que vira há algum tempo, uma moça de amarelo decepando membros como quem corta manteiga, não gostara muito, nem vira a continuação. Seu pensamento ficara rápido, como se não dependesse mais do cérebro para pensar, pois não sentia nada quando pensava, apenas recebia a informação como se usasse um daqueles pontos de comunicação que os jornalistas da TV usam.
Chegou á rua e se virou para ver o rapaz, não que precisasse se mover para isso, virar o pescoço e tudo o mais, mas o hábito era natural demais para ser repreendido. Viu o jovem, jovem como ele com uns três anos de diferença no máximo, e o jovem o vira, e de longe pensara nele como um ser humano, mesmo ele ainda se via como um. Por um instante o rapaz, seu nome era Ricardo, Julio soube através do “ponto”, Ricardo olhou e em seguida estremeceu, e parou.
Para alívio dos dois o encontro fora postergado, o rapaz da katana (e a qualquer momento o nome viria a Julio) parecia disposto a matar, e o semi-zumbi, não sabia o que poderia fazer com o corpo lento, lento como se andasse no fundo de uma piscina. Julio seguiu seu caminho, reto e em frente, por um momento a idéia de chegar até a igreja teve de esperar, já que para chegar lá precisaria passar pelo rapaz com a katana (isso! Katana, Esse era o nome da espada de samurai). Mas resolveu pegar o outro caminho, mais longo, a despeito das criaturas que sentia por lá, teve certeza não se machucaria, não enquanto fizesse de conta que era uma delas.
Julio seguiu a rua, o centro velho da cidade estava como fora há cinqüenta anos, casinhas cujas janelas abriam para as calçadas, as portas de quase três metros de altura e finas como se servissem para girafas, casas lado a lado, se percebendo onde uma começava e a outra terminava apenas pela diferença na pintura, uma desbotada e outra descascada por assim dizer, não havia cores nos salões da ruína, só teias de aranha e o barulho de algo na escuridão, algo que em breve pararia de funcionar, recebeu essa frase do “ponto”, e era cada vez mais difícil não se referir àqueles insights de percepção de maneira que não fossem algo externo, e de onde viera isso? Onde lera algo parecido? Todo o conhecimento prévio que possuía estava ficando difícil de acessar, mas em compensação teve certeza que responderia qualquer pergunta feita diretamente a ele.
Chegando à avenida que margeava o rio, reparou os vários corpos caídos na água, de alguns só se via o topo das cabeças, eles podem andar sob a água, não respiram, como eu, não notou que fizera por si mesmo a observação. Seguiu por toda a extensão da avenida até chegar na rua que o faria atravessar a ferrovia e entrar oficialmente no centro da cidade, dali até a matriz eram apenas dois ou três quarteirões de uma leve subida, bem diferente da qual dera as costas, e para onde o rapaz de nome Ricardo, estava seguindo, seguindo com sua vontade de matar, ou caçar, como captara no lampejo de seus olhos.
Não fosse pelos carros parados no meio das ruas e alguns corpos no chão, Julio teria certeza que o domingo chegara mais cedo, o centro parecia exatamente ás moscas como ficava nos finais de semana após as seis horas da tarde de sábado, lojas fechadas, nenhuma alma viva no calçadão, e isso ainda era verdade, pois as criaturas que Julio avistara andando tão devagar como ele próprio, não estavam vivas, e sequer possuíam uma alma, e nisso, ele deu graças embora há muito tempo não dirigisse a palavra aos céus, eram bem diferentes dele.
Sua presença não foi notada, ou o deram como um deles, não sentiu nem captou nenhum pensamento vindo delas, nada, somente a fome que sentiam, sentiu o cheiro delas, nada que exalasse aquele odor poderia ser bom e teve certeza que nem um urubu se aproximaria de tal criatura, mesmo morrendo de fome, há quanto tempo havia começado isso? Uma semana, três no máximo, e tudo já estava naquele estado, ficou com medo de o corpo assumir tal forma e aspectos, mas não vai assumir, sua alma é viva, ela ainda habita seu corpo, você é quase um vampiro, só que sem a fome do sangue, alias, sem fome de nada, apenas a dor, dor no estomago cheio de veneno de rato, e ele sentiu a dor, vinha sentindo uma ardência nas entranhas desde que saíra de casa, mas agora, parecendo instigada pela voz, doeu de verdade, e ele soube o que teria de agüentar, para sempre.
continua....
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