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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 1 - Snuff

Se fosse para salvá-la teria explicação, faria sentido, o problema era exatamente este, se arriscar indo até a periferia da cidade, apenas para ter uma chance de fazer o que não poderia fazer numa situação normal, era insano, infantil, mas era o que estava fazendo. Levaria pelo menos uma hora, ou duas ou três, dependia do caminho, mas com a pergunta “será que ela está viva?” indo e voltando em sua mente, todo o esforço que fazia parecia o esforço de um sonho, dos piores, onde corremos e não chegamos a lugar nenhum.

Só fazia três dias que o inferno havia tomado a terra, que as aberrações andavam pelas ruas, o engraçado para Ricardo, era ter sempre esperado por este dia, não por ser um religioso fervoroso que acreditava no julgamento final, mas por acreditar piamente na tomada do mundo dos vivos pelos mortos.

Possuía algumas qualidades incomuns, talvez até por pensar nestes derradeiros dias. Treinava kendo desde os dez anos, isso o fazia mortal com uma katana já que praticava há quase quinze anos, e possuía muitas delas em sua casa, todas sem fio, mas o fio, como vira na Internet, era só uma questão de combinação entre um bom aço e uma boa pedra de afiar. Infelizmente as pedras usadas pra se afiar katanas não eram encontradas em árvores, isso nem no Japão, felizmente, e isto parecia ironia do destino, o pai de Ricardo era serralheiro, profissão que sempre quis passar adiante, apesar das constantes negações e da falta de entendimento comum entre pai e filho sobre o que fazer da vida.

Ricardo afiou duas de suas katanas, a réplica da “Hanzo” de Beatrix Kiddo que era forte e forjada a mão por um senhor que encontrara pela internet, e uma comum sem qualquer adereço ou característica peculiar, apenas o preço que pagara, pois era também forjada a mão, mas importada do próprio “país das espadas”.

Ricardo saiu de casa e tinha medo, medo de encontrar a mãe, ou o pai, ou os irmãos transformados em algumas destas bestas que andavam pelas ruas, tinha medo de encontrar os amigos, mas o medo não era de encontrá-los, e sim do que teria de fazer caso isso acontecesse. Desde o dia em que as coisas deram errado ele não os vira mais, tinham saído para seguir sua rotina diária, ele sairia mais tarde, estava de folga e começaria a trabalhar a noite naquela semana. Nunca mais os vira nem veria novamente.

A história de Ricardo, ao contrário das outras, começa em abril, e em abril as pessoas se esquecem que o inverno está chegando. Aquela sensação estranha do abafamento do outono parece nos fazer ignorar a eminência do frio e nos faz relembrar um pouco a primavera. Ricardo odiava a primavera, mas não fora sempre assim e talvez isso mudasse novamente, talvez neste outono, apesar do fim do mundo eminente ele voltasse a se alegrar, talvez, acabasse por conseguir isso.

Há alguns anos atrás seus olhos poderiam ter se enganado...

...e se seus olhos não estavam enganados, e eles se enganarem quando o assunto era mulher era bem comum, ela lhe retribuíra o olhar, mas os seus já estavam cansados de falsas esperanças, e as falsas promessas que os olhos de muitas mulheres transbordam, já que ás vezes por esporte, ás vezes para alimentar sua auto-estima, algumas mulheres se engajam em conquistar, sem nenhum intuito de realização, o coração de um homem. Geralmente os homens nem levam a sério e até gostam da brincadeira, mas tão certo como nem todas as mulheres são assim, os homens também não o são. Talvez este tenha sido mais um desses olhares.

Seguiu-se o que talvez nem Bianca, a ex-namorada de Ricardo tenha sabido. Homem apaixonado, mulher fria, e como juntar água quente a alguns cubos de gelo, o resultado é água morna. Não deu certo, e após um tempo de tentativas, um longo tempo, tudo acabou, Bianca seguiu sua vida como se tivesse tirado uma espinha do rosto, e Ricardo ficou do jeito que sempre fora, com a diferença de continuar amando o que nunca seria seu completamente.

A caminho do bairro onde Bianca morava, atravessando uma área de estranha calmaria, Ricardo ainda pensava nisso tudo, remoia desde aquela primavera. Só precisou de sua espada (a Hanzo) três vezes, eliminou um zumbi, e suas várias horas limpando Racoon City, não o deixavam se enganar ao saber que sim, era um zumbi, eliminou também uma espécie de cachorro com asas e uma serpente com chifres, criaturas tão bizarras que não possuía referencias para classificá-las.

O centro da cidade estava vazio, e claro que assim esperava, pois era nas redondezas que havia casas, e as casas possuíam o alimento das monstruosidades. A cidade era separada pela ferrovia, desativada havia anos, o cenário sempre o fizera se lembrar de seu jogo favorito, e agora vazio, era como uma realidade feita partir dos pixels visitados por Gordon Freeman, o cara mais durão e mais calado de todos os tempos. Ao longe viu um zumbi caminhando, tropeçando seria a palavra correta, mas ele realmente caminhava, o que lhe deu duvida de que se tratava de um morto-vivo realmente.

Aproximou-se com cautela, e deu graças a Deus por não possuir uma arma de longo alcance, senão teria matado o pobre coitado que andava trôpego, não era um comedor de carne humana desmiolado, pelo menos não por enquanto.

- Ei! – gritou – aqui amigo, atrás de você!

O homem se virou e Ricardo parou, não era um zumbi, não mesmo, mas algo nos olhos daquele homem o fez gelar, era algo pior que um zumbi, embora não soubesse ao certo dizer o que. O homem simplesmente seguiu seu caminho como se não houvesse sentido perigo em Ricardo, ou até mesmo notado sua presença.

Não era estranho, não era anormal, usava roupas que podiam ser encontradas em qualquer homem com cerca de trinta anos, o próprio Ricardo as usava de vez em quando, tinha na cara uma contorção de dor e de seus pulsos, Ricardo teve certeza, pingava sangue. Era estranha esta sensação de perigo e desconhecimento, e ele sabia que as pessoas temiam o que não compreendiam.


continua amanhã....

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