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domingo, 7 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 2 - Mamma Said - Parte 2

O calçadão parecia perder a movimentação conforme avançava até a igreja, de onde estava já via sua cúpula de bronze, não se lembrava da ultima vez em que estivera ali, talvez na missa de sétimo dia da mãe? Talvez na da avó que o criara até os dezessete anos? Não se lembrava, era mais uma de suas memórias que havia se escondido. Percebeu que conforme se aproximava da igreja seus movimentos pareciam ficar cada vez mais rápidos, talvez a sua alma (embora de suicida) encontrasse alguma força perto da santidade da igreja, e se a mãe dissera sobre o céu e o inferno que dizer que existia mesmo um Deus e em conseqüência seu oposto...

- Pare onde está se for vivo e me entender! – Disse uma voz vinda de cima, de uma das torres que guardavam os sinos – pare agora ou eu atiro no meio da sua cabeça!

Ele parou, olhou para cima e percebeu uma mulher, sem saber com falou com ela.

“Não atire, eu estou com vários problemas de locomoção mas por favor não atire, não sou uma dessas coisas”

Marília estava em seu posto de vigília na torre e já colocava o dedo sobre o gatilho do rifle quando ouviu na mente estas palavras, ficou meio confusa, mas não pode atirar, o padre saberia, e se o homem pudesse entrar na igreja, talvez não fosse mesmo uma daquelas coisas.

Julio se aproximou do portão que divisava o território da igreja e parou por um instante, sabia que os suicidas não podem receber benção nem muito mesmo ser enterrados em cemitérios cristãos, mas ele ainda estava ali não, nunca soube de um suicida que andou com as próprias pernas para dentro de uma igreja. Atravessou o portão e sentiu a dor de estomago piorar, sua cabeça doía também e seus pulsos voltaram a verter sangue, poderia ficar ali, mas o castigo piorava, é claro. As portas se abriram e Julio viu um homem que já fora seu conselheiro, há muitos anos, quando a mãe ainda era viva e o trazia ali todos os domingos.

- Julio – disse o padre – Júlio, é você? Meu deus meu rapaz, há quanto tempo, o que aconteceu?

Mesmo sentido algo de estranho no rapaz, o padre se aproximou, colocou as mãos no ombro de Júlio e o forçou a encará-lo, quando sem opção ele retribuiu o olhar do padre, este viu o que havia de errado no garoto, e por um instante todo seu mundo perdeu a cor, para depois recuperá-la. Não se pode dizer se a fé do padre sofreu mais uma de suas constantes provas naquele momento, e Deus sabe que elas haviam sido várias nos últimos dias, mas olhar para Júlio, perceber o que ele era e vê-lo ali, dentro daquele terreno, disseram ao padre Josué que as coisas estavam realmente diferentes, a voz na sua cabeça dizia para aceitar o rapaz, talvez tentar segurá-lo ali, ele é neutro, não deixe-o desamparado senão perderá sua alma para sempre. E era difícil não ouvir a voz, principalmente suspeitando de quem ela era.

- João, Gustavo, venham me ajudar – gritou o padre para a igreja – tragam os óculos escuros que estão sobre minha mesa, e não se assustem com o que virem aqui

- Obrigado padre – disse Júlio entre as lancinantes pontadas de dor que varavam seu estomago como espadas flamejantes – mas acho que posso morrer de dor se entrar aí dentro.

- Acho que ninguém morre duas vezes Júlio – o padre o olhou com a compaixão que sempre demonstrara pelo garoto – nem mesmo nestes dias.

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