“Essa não é uma história de terror...
... Muito menos um sonho...
Não pode ser já que estou vivo, contra minha vontade, e sei o que acontece comigo, ao fechar meus olhos e abri-los novamente é a mesma imagem embaçada a minha frente, os óculos escuros que uso não interferem em nada a minha visão. Não tenho olhos para enxergar e eles são apenas para o conforto de quem me olha de frente, enxergo com algo mais sensorial que físico, enxergo com o tal olho da mente que muitos veneram.
Minha dor me corrói como ácido e queima todo o interior do meu corpo, meus pulsos não param de pingar sangue, e fico imaginando até quando terei sangue para isso...
É por isso que as pessoas se matam, porque ninguém no mundo sentirá sua falta, ninguém tentará impedi-las, elas estão sozinhas, sozinhas e sem nada pra fazer em vida, a morte tem outro rosto quando a gente se encontra nesta situação.”
Julio se levantou e com grande dificuldade abriu a porta, todos olharam em sua direção, estavam cochichando e Julio sabia o assunto, claro que sabia, agora sabia de tudo.
- Padre – disse olhando o velho homem que o conhecia tão bem – não vejo beneficio pra ninguém em eu ficar aqui, vou embora, não quero incomodar nem gerar desconforto, além disso, a dor está insuportável, agora pouco estava delirando, estarei seguro lá fora, mais do que vocês aqui dentro comigo.
Ricardo assistiu Julio saindo da Igreja, o padre ficou arrasado.
- E lá se vai outra alma que não pude salvar.
Ricardo interveio.
- Padre, acho que gostaria de saber que não fiz o que havia me disposto a fazer, por fim, alguma coisa aqui dentro ainda vive, algo que achei ter morrido há algum tempo.
- Eu sei filho, eu havia notado isso antes mesmo de você. Mas o trabalho do sacerdote é salvar a todos, e existe alguma razão para aquele garoto estar vivo ainda, por mais que os tempos sejam esses, uma pessoa na situação dele pode fazer toda a diferença na hora do juízo.
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