Depois de vários dias de sol quente e tempo seco, uma fina chuva caiu, contínua como lágrimas de uma criança com dor. Na rua as criaturas ficavam inertes se molhando, ficavam apenas paradas, indiferentes ao chuvisco que virou temporal. A chuva deu uma trégua e Ricardo saiu em missão, e só voltaria perto do anoitecer, quando nem mesmo ele se aventurava a ficar fora da igreja. Ele buscava remédios para os sobreviventes, qualquer corte poderia ocasionar uma infecção que fugiria do controle em poucos dias. O ar amanhecia pesado e dependendo da quantidade de bestas que havia circulado a Matriz durante a noite, ele poderia até ser considerado venenoso.
A busca por remédios e bandagens não foi frutífera. Ricardo encontrou apenas duas drogarias em seu caminho, uma delas queimou até desmoronar, a outra havia sido saqueada anteriormente e nada utilizável sobrara em seu interior. Continuou andando e procurando outra farmácia mas já pensava em voltar quando ouviu um trovão distante.
A chuva o pegou e ele buscou abrigo em uma construção abandonada, entrou rapidamente saltando o muro e tomando cuidado para não atrair atenção desnecessária. Era uma salão de pé direito alto e ao lado da parede havia uma escada que levava ao segundo piso, uma casa em construção, as paredes sem reboque mostravam canos instalados e provavelmente haveria água, havia. Ricardo encheu seus dois cantis e foi até uma das janelas observar a rua deserta molhada pela chuva e que exalava o cheiro que tanto gostava, asfalto molhado, asfalto novo cheirava melhor, aquele era um bairro novo e poucos carros passaram por aquele pedaço antes dos acontecimentos apocalípticos que transformaram Ricardo em um Mad Max da cidade.
De onde observava ele podia ver a abóbada dourada da Matriz ao longe, via também onde a avenida na qual andara se encontrava com a Avenida Beira-Rio cerca de um quilometro abaixo. Seu palpite fora certo, não havia encontrado ninguém, vivo ou morto, por aquelas bandas, só ele contemplava o festival das rajadas de vento coreografando a chuva que se chocava com o solo gerando respingos que mais pareciam saias inversas de bailarina e que se desfaziam, quase que instantaneamente, em pequenas nuvens de vapor. Por um segundo pensou estar em seu próprio quarto observando a chuva, o que fazia com certa freqüência, mas um tiro de rifle o fez voltar a si, mas não foi o barulho que o despertou, e sim os estilhaços da parede perto de sua cabeça. Onde a bala disparada foi se alojar.
Com um movimento rápido e involuntário Ricardo se jogou ao chão e sacou os seus revolveres, nunca os havia incomodado em seus coldres improvisados, geralmente usava suas duas laminas para dar conta de uma ou outra aberração, a situação estranha de se tornar alvo exigia novas táticas.
Mais dois tiros foram disparados e Ricardo teve seu segundo palpite do dia, correto como o primeiro, os tiros vinham de um anglo quase a quarenta e cinco graus a direita da construção, e isto salvara sua vida já que o sol se punha atrás de onde estava e com certeza atrapalhara o atirador. Com muito cuidado ele se dirigiu ao banheiro, ou o que nunca se tornaria propriamente um, e olhou pela pequena abertura da janela, tinha certeza que não seria visto facilmente ali. De seu “ponto seguro” observou uma fileira de pequenos prédios de apartamentos, no terceiro deles, da direita para a esquerda, uma janela estava aberta, no terceiro andar. Não havia mais que trezentos metros entre sua janela e a janela de onde supostamente o tiro partira. E não havia como se aproximar do outro prédio sem ser visto.
Olhando em volta Ricardo viu sacos rasgados e um pedaço razoável do que parecia ser um saco velho de argamassa, ele o pegou e com um estilhaço de tijolo escreveu “Sou Amigo”, se dirigiu novamente a porta da sacada na qual quase fora alvejado e colocou o papel escrito para fora, rapidamente recolheu sua mão, outro disparo. desta vez no chão, longe do papel, o que só podia significar duas coisas, ou o atirador era inexperiente no manuseio do rifle e em conseqüência inexperiente em matar, ou possuía algum problema de visão, Ricardo palpitou na primeira, esse foi seu único palpite errado do dia. Mais três tiros foram disparados nas paredes do sobrado. Ricardo empurrou um tijolo no vão da porta da sacada e o tiro veio, ao lado do tijolo.
O sol ainda descia e as trevas avançavam vindas do ouro lado da Terra, a cada sinal de movimento ou aparentemente nem sequer isso, um tiro era disparado, uma parte de reboco se soltava da parede e Ricardo contava as balas, já estavam em vinte, ou seriam vinte e uma? Não se preocupava muito, os únicos pensamentos que vinham a sua cabeça quando ouvia um tiro e continuava pensando eram “mais uma desperdiçada”. O sol se pôs totalmente e só quando tudo ficou escuro que Ricardo se deu conta do perigo em que estava, passar a noite dentro das paredes sagradas da igreja era difícil, toda a gritaria das gralhas do inferno do lado de fora tornava uma noite de sono não mais prazerosa que uma extração de dente sem anestesia. Como seria então passar a noite em um local mundano, sem nenhum tipo de barreira protetora segurando os monstros do lado de fora? Ele descobriria em breve, os gritos desumanos e o farfalhar de asas que se aproximava não podiam ser ignorados.
O atirador começou então o que muitas pessoas chamam de acesso de fúria, pela cabeça de Ricardo a alcunha “berserk” passou em cor vermelho sangue. Seqüências rápidas de cinco tiros eram ouvidas e entre elas um intervalo de não mais de dois segundos, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco, quarenta, quarenta e cinco, não fosse o intervalo, Ricardo poderia até pensar que o atirador havia deixado o rifle de lado e disparava loucamente uma automática. Os tiros somados aos gritos dos monstros que ocasionalmente eram atingidos atraíram uma atenção mais que indesejada para a região onde se encontravam.
Ricardo estava estático encostado na parede ouvindo o que parecia ser uma salva de tiros de comemoração no conjunto de apartamentos, com cinco minutos desta trilha sonora de desespero os tiros cessaram, aparentemente as balas chegaram ao seu inevitável fim, e os gritos também pararam. Mais cinco minutos e o silencio foi tomando conta novamente da noite naquele bairro afastado e aparentemente sem vida. Um único tiro varou a noite e seu estampido foi seco e predizia morte, Ricardo sentiu uma dor muito forte na cabeça e caiu, as sombras também caíram sobre ele.