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terça-feira, 12 de julho de 2011

Paraíso Perdido - Parte II - Capítulo 2.1 - Rafaela Mathias

conforme registrado por Por Helena Heitlun nas Crônicas dos Mortos...

Rafaela Mathias – Apto 323

Rafaela foi vista pela última vez embarcando no ônibus que a levava para o trabalho, ônibus fretado de uma grande multinacional, poucas pessoas a conheciam como eu já que sua natureza reclusa e recatada a impedia de se relacionar abertamente com alguém. Ao contrário do que muitos moradores pensavam, ela não era uma prostituta, e sim a gerente de recursos digitais de uma grande empresa na cidade vizinha, vale ressaltar que esse era um belo cargo para uma moça de apenas vinte e cinco anos. Rafaela veio do interior quando se formou, conseguiu o estágio de seus sonhos e se instalou no condomínio, pagava aluguel e metade de sua renda ia para a casa dos pais, nas diversas conversas que tivemos pude ver a moça simples que era a despeito das belas roupas e sapatos que usava para trabalhar.

Rafaela nutria uma paixão secreta por seu assistente, paixão esta que demorou muito para ser concretizada e agora quem sabe, pôde ser feita em outro lugar, deixou apenas seu gato, Chico, após a retirada dos alimentos seu apartamento será lacrado e este memorial colado na porta. Descanse em paz amiga, mas se ainda estiver entre nós, sobreviva e volte.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Paraíso Perdido Parte II - Capítulo 1 - I just called.... Parte 2

- Seu Marcos, o braço tá doendo? quer tomar um analgésico?

- Aproveita e me dá um anti térmico pq eu to queimando de febre, deve ser alguma infecção.

- Eu não quero parecer louco, mas acho que sei o que está acontecendo, já vi isso um zilhão de vezes e não posso estar enganado, dêem uma olhada – foi zapeando os canais da TV que mostravam cenas e mais cenas de completa histeria em vários locais do mundo, pessoas que deveriam estar mortas, ou no mínimo se contorcendo de dor pelas múltiplas lacerações, se arrastavam atrás de pessoas que corriam desgovernadas, carros em chamas, a polícia atirando para todos os lados. – não quero falar, mas vocês sabem o que estou pensando. Fabiano se levantou e foi até a cozinha pegar uma bolsa de gelo e uma garrafa de água.

- Zumbis, você está pensando em zumbis Fá, e eu acharia que você está louco se não estivesse vendo as mesmas cenas que você. Mas não é possível, não pode ser possível

- O fato de ser possível ou não, não parece impedir a Dona Dolores, de andar por ai mesmo com metade da cabeça amassada – Fabiano apontou pela janela da cozinha o quintal vizinho, uma mulher de meia idade vagava catatônica pelo terreno, como se procurasse algo perdido, ao se virar Marcos e Ana notaram o formato achatado que a metade esquerda de sua cabeça havia adquirido.

- Eu vou arrastar alguns móveis para bloquear as janelas, a gente vai subir e ficar no segundo andar, precisamos desligar todas as luzes, ta escurecendo e não acho uma boa idéia chamar atenção desnecessária pra cá.

Ouviram um barulho no banheiro do térreo, vidros quebrados, a porta estava fechada e Fabiano a trancou por fora, guinchos e silvos agudos vinham de dentro.

- É melhor irmos rápido – disse Marcos – Ana, pega o cooler azul e coloca algumas coisas nele com gelo, vamos levar algo para comer pra cima, conseguiu falar denovo com sua mãe?

- Ainda não pai, diz que todas as linhas estão ocupadas – Ela se dirigiu a dispensa – Fá, Fá, vem rápido aqui – gritou.

- Não grita Ana, não importa o que vej.... – ele viu.

A dispensa possuía duas janelas basculantes a cerca de dois metros de altura, tinham por volta de vinte centímetros de altura e tomavam toda a extensão da parede de um metro e meio, e estavam cobertas de mãos, que se moviam e batiam no vidro.

- Vamos, vamos, não podemos demorar mais – se dirigiu a Marcos – o senhor ainda tem aquele machado? Aquele que usou pra me botar medo quando vim primeira vez aqui.

- Tenho, mas tá la no quartinho dos fundos, por quê?

- Acho que vou ter que destruir sua escada, para nossa segurança. – Fabiano olhou para o sogro como se pedisse aprovação.

- Aparentemente você é o expert aqui, faça o que for necessário, eu vou subir com a Ana, a escada de metal está ai na dispensa, se você for sair vai rápido, antes que todos os vizinhos resolvam fazer uma visita noturna.

Fabiano abriu a porta rapidamente e foi até o quartinho dos fundos, o muro era alto e a única parte problemática era a divisa com os vizinhos que era feita com uma cerquinha de madeira, mas não haviam ninguém no quintal ao lado, ele chegou o pequeno cômodo de dois metros quadrados com telhado de amianto e pegou o machado, voltou correndo e por pouco não foi visto por um dos vizinhos que entrava pelo corredor lateral da casa vizinha.

A escada deu mais trabalho do que imaginava, mas após quase dez minutos de esforço, Fabiano conseguiu separar o degrau mais alto do andar superior da casa, armou a escada de metal e subiu, recolhendo-a logo em seguida, estavam protegidos pela noite, e podiam dizer graças a isso.

Marcos estava com um olhar delirante e lhe deu uma pistola calibre 38.

- Se eu virar uma dessas coisas, e por um acaso ainda estiverem aqui, acabe comigo, não deixe minha filha me ver nessa situação e tente achar a mãe dela.

- Sim senhor – farei o que for necessário – também tenho quem encontrar lá fora.

- Eu vou entrar no meu quarto e trancar a porta por dentro, estou levando um pouco de comida e água para a noite, se acontecer algo comigo, duvido que consiga sair de lá, se sair, sabe o que fazer.

- Sim senhor.

- Obrigado Fabiano, e não faça nada de errado com minha filha. – ele sorriu.

- Sim senhor, espero te ver pela manhã.

- Eu também Fabiano, eu também.

Marcos fechou a porta. Fabiano foi ao quarto de Ana, ela estava deitada, aparentemente a febre voltara e sua cabeça doía.

- O que você e meu pai estavam conversando?

- Vamos esperar ate amanhã Ana, aí eu te conto – ele a beijou com carinho – dorme um pouco, eu vou ficar de olho lá embaixo.

Fabiano ficou a noite toda acordado olhando pela janela, certa hora as luzes dos postes apagaram-se, Fabiano não sabia, mas uma ambulância batera em um poste não muito longe dali, seu irmão estava nela, quebrou o braço e tinha escoriações no corpo todo, mas fora o único a sobreviver, Luciano era o nome dele, e por enquanto ele vai ficar dentro da ambulância desacordado, até que os gemidos de seus outros três tripulantes o acorde

Pouco antes das luzes se apagarem, o vizinho da frente da casa de Ana chegou, ele possuía uma dessas grandes SUVs importadas onde cabiam várias pessoas. Fabiano sabia que ele trabalhava para o governo, só não sabia o que ele fazia, não até aquele momento.

O homem desceu de seu carro e falou algo para alguém que estava dentro dele, outros dois homens desceram, eram grandes como ele, estavam vestidos com uniformes do exército, as luzes do carro começaram a atrair a atenção de alguns zumbis que estavam nas casas, o homem entrou ela porta da frente e os outros cobriam sua retaguarda com um fuzil cada.

Fabiano ouviu gritos indistintos, parecia o homem chamando por alguém, ouviu dois tiros e os homens se viraram para a porta, tempo o suficiente para não ver uma das criaturas chegar pelo canto da garagem e lhe morder o pescoço, o outro atirou nos dois, ele sabia o que estava acontecendo. O homem careca e grande que era dono da casa saiu com ar desolado, o soldado que restara do lado de fora lhe fez uma pergunta, ele balançou a cabeça em negativa.

Os tiros atraíram mais ainda a atenção das criaturas, vindas de cima e de baixo da rua, cerca de vinte ou trinta deles cercavam a casa, os dois homens dispararam alguns tiros, todos na cabeça das criaturas e entraram no carro, atropelando-os. O descuido com o qual fugiam ou atropelavam zumbis por vingança, os fez passar reto por um cruzamento e acertarem em cheio uma ambulância que capotou duas vezes antes de se chocar com um poste antigo e romper os cabos de energia que iam para os bairros.

Ana acordou e perguntou o que era a barulheira, Fabiano a acalmou e pediu para a namorada voltar a dormir, quando olhou par fora, o soldado não estava mais no gramado da frente, a luz da lua apenas iluminava uma mancha de sangue onde seu corpo estivera, e ela brilhava estranhamente naquela noite de maus finais.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Paraíso Perdido Parte II - Capítulo 1 - I just called.... Parte 1

- Alô?

- Oi, sou eu, tudo bom?

- Tudo, você ta melhor?

- To sim, a febre baixou e minha garganta não ta mais raspando. Como foi a prova de geografia?

- Foi tranqüila, mais perguntas sobre um povo que eu nem tenho interesse de conhecer e que mora em um lugar que eu nunca vou ver...

- Falando assim até parece fácil..

- E é, são só dados, nada que a gente realmente se importe, quando a gente se importa e tem envolvimento fica mais difícil. Você ta sozinha?

- Aham, minha mãe ta no hospital e meu pai foi no mercado.

- Mais tarde eu dou um pulo aí, to terminando de assistir uma série aqui no computador. Opa, isso não pode ser verdade..

- O quê?

- Um vídeo enviado pela internet, acho que é na China, uma multidão correndo desesperada e a polícia abrindo fogo contra todos, mas no meio deles, alguns só se arrastam, e mesmo com os tiros eles continuam andando, opa, ai... Um policial acertou uma pessoa na cabeça, essas que estavam se arrastando, só assim ela caiu, Deus do céu, não pode ser isso...

- Meu computador ta lá no quarto, to com preguiça de subir, mas você está me assustando, vou lá dar uma olhada.

- Calma aí. Antes disso confere se as portas estão fechadas, acabei de ver um vídeo agora que me deixou tonto, é um vídeo de celular, gavetas de necrotério tremendo e mortos saindo delas, sem braço, com vários tiros no peito.

- Deve ser algum merchandising de filme, você sabe que quando tem um filme bom pra sair eles atacam de todas as maneiras.

- Você não ta entendendo, o necrotério é aqui na cidade e o vídeo quem fez foi meu irmão, ele foi lá hoje de tarde com a faculdade, falou que a situação nas ruas não é das melhores e que ele tem certeza que viu o Vicente zelador do prédio estourando a cabeça do Josuel da padaria com um pedaço de pau.

- Não é possível...

-Confere as portas por favor e sobe pro seu quarto, liga a TV, computador ou o que puder, ta todo mundo maluco.

- Mas meu pai, minha mãe, eles estão lá fora, isso não pode ser verdade. Cheguei no meu quarto, Ai... ouvi um barulho lá fora, parece o carro do meu pai..

- Toma cuidado..

- Ele bateu em outro carro, o carro do Geraldo, ele ta imóvel dentro do carro, meu pai saiu do carro possesso, gritando e xingando o Geraldo, Ai meu Deus, o Geraldo tá estranho, a camisa dele ta toda ensangüentada, e ele ta arrastando o pé, não andando.. PAI, SAI DAÍ, VEM PRA DENTRO!!!, to descendo, acho que meu pai me ouviu, vou abrir a porta e trancar.

- Calma, to indo aí, em dois minutos eu chego...

- Não desliga o telefone que eu também não vou desligar, vou entrar pelos fundos.

- Ai meu Deus, meu pai levou uma mordida no ombro, funda demais. Ta doendo Pai? - Ta doendo pra caramba, esse filho da puta do Geraldo só pode estar maluco, primeiro entra na frente do meu carro, depois me morde. Quem ta no telefone? – É o Fabiano, ele ta me dizendo que ta todo mundo maluco mesmo...

- Ana, Aninha, passa o telefone pro seu pai, tá me ouvindo Ana?

- Tô sim, pera aí. Pai o Fá quer falar com você.

- Alô, Oi Fabiano, tudo bom? Eu tô puto da vida e com uma dor insuportável no braço, o lazarento do Geraldo abriu um buraco no meu ombro, o quê? Ligar a televisão? Tô ligando. Vixe Maria, Ana, fecha as portas e as janelas, o Fabiano tá na porta da cozinha, liga pra sua mãe, depois você vem aqui ver a televisão comigo.

Fabiano entrou e logo trancou a porta atrás dele, deu um beijo leve em Ana e a ajudou a fechar as janelas.

- O Geraldo ta na entrada da cozinha dele e eu tenho quase certeza que ele estava comendo a perna do Geraldinho, no caminho pra cá eu vi umas coisas muito estranhas, meu irmão não quis vir, ele tava tentando falar com minha mãe, mas ninguém do hotel onde ela está hospedada atende o telefone.

- Consegui falar com minha mãe, ela vai ficar no plantão a noite toda e só volta amanhã de manhã, mas ela falou para não saírmos de casa.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Paraíso Perdido - Parte II - As Crônicas dos Mortos

Logo que as coisas começaram a dar errado, Helena soube o que precisava fazer. No cenário caótico que se desenvolveu naquele final de outono, suas habilidades caíram como uma luva, suas posses também.

Quando Helena nasceu não havia a maravilha do ultrassom, seu pai estava crente que teria um varão, o quarto do novo bebê era azul, vários carrinhos e brinquedinhos de menino compunham o cenário. Mas nasceu Helena, incontestavelmente uma menina, e a beleza da pequena fez o pai se desmanchar e em menos de 1 hora mudar todo o quarto, exceto por um brinquedo, o móbile de carrinhos acalmava a menina. Conforme ela ia crescendo o pai percebia a mesma seriedade e destreza que possuíra na infância e quando a menina completou dez anos ele lhe deu uma espingarda de chumbinho e Helena começou a praticar. Aos vinte anos foi campeã sul-americana de tiro e se preparava para as olimpíadas que aconteceriam no ano em que o mundo mudou.

Helena cresceu envolta em armas e munição, a família era dona de uma loja/clube de tiro e sua casa vivia abarrotada de armas desmontadas e cápsulas, o apartamento que dividia somente com o pai desde que a mãe morrera no ano anterior possuía um cômodo exclusivo para o arsenal.

Na manhã do dia vinte de maio, seu pai saiu para comprar pão, e não voltou. Não voltaram também o Sr. Afonso do 312, a D. Antônia do 145, Rafaela, que saíra para trabalhar, residente no apartamento vizinho a Helena, o 323. Outros tantos não foram mais vistos, alguns deles sim, mas só por Helena, por poucos segundos, o suficiente para que fossem obliterados completamente. A idéia de escrever as memórias daqueles que partiram veio da vontade de contar as outras pessoas que Rafaela era uma moça gentil, séria e honesta, já que dado seu desaparecimento, poucas pessoas se lembravam da mulher que morava no condomínio há pelo menos cinco anos. Assim surgiam as crônicas dos mortos, título dado por Helena ao pequeno caderno de anotações que usava para registrar e prestar uma última homenagem àquelas pessoas que não voltaram.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 12 - Who wants to live forever.

Depois de vários dias de sol quente e tempo seco, uma fina chuva caiu, contínua como lágrimas de uma criança com dor. Na rua as criaturas ficavam inertes se molhando, ficavam apenas paradas, indiferentes ao chuvisco que virou temporal. A chuva deu uma trégua e Ricardo saiu em missão, e só voltaria perto do anoitecer, quando nem mesmo ele se aventurava a ficar fora da igreja. Ele buscava remédios para os sobreviventes, qualquer corte poderia ocasionar uma infecção que fugiria do controle em poucos dias. O ar amanhecia pesado e dependendo da quantidade de bestas que havia circulado a Matriz durante a noite, ele poderia até ser considerado venenoso.

A busca por remédios e bandagens não foi frutífera. Ricardo encontrou apenas duas drogarias em seu caminho, uma delas queimou até desmoronar, a outra havia sido saqueada anteriormente e nada utilizável sobrara em seu interior. Continuou andando e procurando outra farmácia mas já pensava em voltar quando ouviu um trovão distante.

A chuva o pegou e ele buscou abrigo em uma construção abandonada, entrou rapidamente saltando o muro e tomando cuidado para não atrair atenção desnecessária. Era uma salão de pé direito alto e ao lado da parede havia uma escada que levava ao segundo piso, uma casa em construção, as paredes sem reboque mostravam canos instalados e provavelmente haveria água, havia. Ricardo encheu seus dois cantis e foi até uma das janelas observar a rua deserta molhada pela chuva e que exalava o cheiro que tanto gostava, asfalto molhado, asfalto novo cheirava melhor, aquele era um bairro novo e poucos carros passaram por aquele pedaço antes dos acontecimentos apocalípticos que transformaram Ricardo em um Mad Max da cidade.

De onde observava ele podia ver a abóbada dourada da Matriz ao longe, via também onde a avenida na qual andara se encontrava com a Avenida Beira-Rio cerca de um quilometro abaixo. Seu palpite fora certo, não havia encontrado ninguém, vivo ou morto, por aquelas bandas, só ele contemplava o festival das rajadas de vento coreografando a chuva que se chocava com o solo gerando respingos que mais pareciam saias inversas de bailarina e que se desfaziam, quase que instantaneamente, em pequenas nuvens de vapor. Por um segundo pensou estar em seu próprio quarto observando a chuva, o que fazia com certa freqüência, mas um tiro de rifle o fez voltar a si, mas não foi o barulho que o despertou, e sim os estilhaços da parede perto de sua cabeça. Onde a bala disparada foi se alojar.

Com um movimento rápido e involuntário Ricardo se jogou ao chão e sacou os seus revolveres, nunca os havia incomodado em seus coldres improvisados, geralmente usava suas duas laminas para dar conta de uma ou outra aberração, a situação estranha de se tornar alvo exigia novas táticas.

Mais dois tiros foram disparados e Ricardo teve seu segundo palpite do dia, correto como o primeiro, os tiros vinham de um anglo quase a quarenta e cinco graus a direita da construção, e isto salvara sua vida já que o sol se punha atrás de onde estava e com certeza atrapalhara o atirador. Com muito cuidado ele se dirigiu ao banheiro, ou o que nunca se tornaria propriamente um, e olhou pela pequena abertura da janela, tinha certeza que não seria visto facilmente ali. De seu “ponto seguro” observou uma fileira de pequenos prédios de apartamentos, no terceiro deles, da direita para a esquerda, uma janela estava aberta, no terceiro andar. Não havia mais que trezentos metros entre sua janela e a janela de onde supostamente o tiro partira. E não havia como se aproximar do outro prédio sem ser visto.

Olhando em volta Ricardo viu sacos rasgados e um pedaço razoável do que parecia ser um saco velho de argamassa, ele o pegou e com um estilhaço de tijolo escreveu “Sou Amigo”, se dirigiu novamente a porta da sacada na qual quase fora alvejado e colocou o papel escrito para fora, rapidamente recolheu sua mão, outro disparo. desta vez no chão, longe do papel, o que só podia significar duas coisas, ou o atirador era inexperiente no manuseio do rifle e em conseqüência inexperiente em matar, ou possuía algum problema de visão, Ricardo palpitou na primeira, esse foi seu único palpite errado do dia. Mais três tiros foram disparados nas paredes do sobrado. Ricardo empurrou um tijolo no vão da porta da sacada e o tiro veio, ao lado do tijolo.

O sol ainda descia e as trevas avançavam vindas do ouro lado da Terra, a cada sinal de movimento ou aparentemente nem sequer isso, um tiro era disparado, uma parte de reboco se soltava da parede e Ricardo contava as balas, já estavam em vinte, ou seriam vinte e uma? Não se preocupava muito, os únicos pensamentos que vinham a sua cabeça quando ouvia um tiro e continuava pensando eram “mais uma desperdiçada”. O sol se pôs totalmente e só quando tudo ficou escuro que Ricardo se deu conta do perigo em que estava, passar a noite dentro das paredes sagradas da igreja era difícil, toda a gritaria das gralhas do inferno do lado de fora tornava uma noite de sono não mais prazerosa que uma extração de dente sem anestesia. Como seria então passar a noite em um local mundano, sem nenhum tipo de barreira protetora segurando os monstros do lado de fora? Ele descobriria em breve, os gritos desumanos e o farfalhar de asas que se aproximava não podiam ser ignorados.

O atirador começou então o que muitas pessoas chamam de acesso de fúria, pela cabeça de Ricardo a alcunha “berserk” passou em cor vermelho sangue. Seqüências rápidas de cinco tiros eram ouvidas e entre elas um intervalo de não mais de dois segundos, vinte e cinco, trinta, trinta e cinco, quarenta, quarenta e cinco, não fosse o intervalo, Ricardo poderia até pensar que o atirador havia deixado o rifle de lado e disparava loucamente uma automática. Os tiros somados aos gritos dos monstros que ocasionalmente eram atingidos atraíram uma atenção mais que indesejada para a região onde se encontravam.

Ricardo estava estático encostado na parede ouvindo o que parecia ser uma salva de tiros de comemoração no conjunto de apartamentos, com cinco minutos desta trilha sonora de desespero os tiros cessaram, aparentemente as balas chegaram ao seu inevitável fim, e os gritos também pararam. Mais cinco minutos e o silencio foi tomando conta novamente da noite naquele bairro afastado e aparentemente sem vida. Um único tiro varou a noite e seu estampido foi seco e predizia morte, Ricardo sentiu uma dor muito forte na cabeça e caiu, as sombras também caíram sobre ele.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 11 - Under the Same Sun

A cidade estava silenciosa, não de um jeito pacifico, mas como se cada pedaço dela estivesse completamente morto, sem pássaros, sem movimento, sem nem mesmo uma das criaturas que há pouco cercavam a igreja.

No parque o homem se aproximou do banco onde sua mãe e seu dito rival conversavam, não havia maldade naquele lugar e ele já sabia q assim o encontraria, a idéia era má, a mente que a cultivara durante todos estes anos era sem duvida maligna, e não deixava de dar razão ao caído.

- Os homens são maus – disse se aproximando e pegando carinhosamente a mão de sua mãe - a raça humana tem ainda milênios para que encontrem realmente seu potencial, mas isso não significa que queimá-los todos em rios de lava e espetos possa resolver alguma coisa.

- Um minuto – interferiu o homem sentado – sei como você continua o sermão, “existe bondade, existem aqueles pelos quais vale à pena lutar e deixar minha idéia de lado” – ele continuou – não posso lhe tirar a razão, tanto quanto você não pode tirar a minha. O que me enerva é que a maioria não corresponde às expectativas Dele... Santo Deus... Eles te mataram te penduraram como um animal e você ainda os ama.

- Eu estar aqui é a prova de que eles não me mataram, então não tenho motivo para raiva.

- Bom – o homem se levantou e se dirigiu ou outro – acho que posso fazer isso hoje, venha cá, aperte minha mão, já posso pisar no solo com meus pés, e provavelmente posso tocá-lo, não existem inocentes nem culpados, apenas réus.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 10 - One

Um animal acuado não pensa, reage, embora todos os animais sejam considerados sem inteligência, o homem, suposto dono do cérebro mais avançado do planeta não deixa de ser diferente em sua resposta quando amedrontado ou coagido.

Ricardo não se abalara nem um pouco quando o mundo em que vivia se tornou o inferno, apenas mudou sua rotina, o que era antes um vai e vem entre o trabalho e sua casa, diversas incursões no mundo virtual onde derrotava monstros nas horas vagas, se tornou seu próprio videogame. Não era de se espantar que o jovem anti-social gostasse da situação, nem que os muitos que chegaram à igreja após ele estivessem em choque diante a crueza de seus atos e palavras, não era mocinho, pensou ser um dia, mas descobriu que não gostava do papel.

Gustavo nunca saía nas excursões para arrecadar alimento, cada vez mais eles iam mais longe, pois só se aproveitava os enlatados e bebidas engarrafadas não refrigeradas dos mercados e mercearias da cidade, Gustavo nunca estava por perto quando os homens e mulheres se reuniam para sortear quem ia sair, todas as vagas eram sorteadas no palito, exceto a de Ricardo que era presença garantida nos grupos de busca por alimentos e eventualmente sobreviventes, e eles se tornaram tão escassos quanto a comida assim que avançaram algum tempo de inferno na terra.

A última leva dos sobreviventes chegara ao final do que seria novembro, pelas contas do padre, eram doze, entre eles duas crianças, seus pais não estavam no grupo e haviam sido recolhidas de uma casa antes infestada, se esconderam no sótão, puxaram a escada e por sorte foram encontradas quando uma das mulheres do grupo adentrou a residência em busca de água. As crianças estavam sem comer a quase três dias e não tinham forças para chamar, O que as ajudou, ironicamente, foi um velho com um braço pela metade e outro mostrando o osso dos dedos de tanto arranhar a parede, ele olhava fixamente a porta do sótão por onde as crianças entraram e foi presa fácil para a mulher que estourou seus miolos com a arma que dizia ser de seu finado marido.

Com o barulho do tiro a menina abriu o sótão e pareceu não acreditar quando viu uma pessoa normal andando em sua casa, imediatamente começou a chorar ao reconhecer seu velho avô caído com metade da cabeça espalhada no chão, depois de muito custo ela entendeu que aquilo fora necessário e desceu, trazendo consigo seu pequeno irmão de não mais de seis anos, desacordado e muito fraco.

Segundo o relato de um dos jovens do grupo eles andaram por dois dias ate chegarem a um supermercado, onde ficaram por quase um mês e por fim foram encontrados pelos membros da equipe de busca, todos estavam escondidos em uma câmara fria e que oferecera grande proteção por todo o tempo, e a comida não era um problema, apesar de um deles ter sido apanhado enquanto “fazia as compras” há cerca de uma semana atrás como informou a mulher mais velha, Joana era seu nome, o homem apanhado era seu marido.

A sobrevivência se tornou o negocio de alguns pelo que puderam perceber, havia um sindico de prédio em algum lugar do centro da cidade, provavelmente no edifício Avenida, que se valera das grandes portas de aço dos anos 50 instaladas em seu prédio para transformar o condomínio em um stronghold, inclusive cobrando pagamento em serviços por sua “hospitalidade”. O canal de rádio que utilizavam era freqüentemente o canal de divulgação do local mais seguro na cidade, segundo o sindico, Michael se refugiou na igreja dois meses após viver no condomínio, o sindico não se opunha a abrir os portões para quem quisesse partir, mas enfatizava que nunca mais as aceitaria.

Havia relatos de outras comunidades sobreviventes e ainda mais de atiradores solitários que conseguiram se virar por todo esse tempo, alguns deles eram avistados andando tranqüilamente pela praça abatendo as aberrações que cruzavam seu caminho, outros ofereciam seus serviços de escolta para busca de alimentos, aparentemente a situação tomara a dimensão de uma selva onde os monstros eram animais selvagens e os sobreviventes apenas tribos que vez ou outra desafiavam a sorte e se aventuravam em busca de comida e melhores condições de sobrevivência.

De certa forma era confortante saber que a humanidade não dependeria exclusivamente do grupo da igreja, mas aos olhos de Ricardo, quando a comida começasse a rarear e os esconderijos se tornassem mais raros e menos seguros uma insurreição seria instalada e ele tinha certeza, lutar contra aberrações se tornaria a coisa mais fácil do mundo quando começassem a ter que brigar com os vivos.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 9 - When you were young

Ricardo se dirigiu ao aposento que agora chamava de quarto, não era nem aconchegante nem estranho, era algo exatamente no meio disso, não queria se sentir muito a vontade, mas seu lado caseiro deu toques de seu antigo quarto naquele cubículo onde antes se guardava os materiais de limpeza da igreja.

A cama era desmontável, o próprio padre havia lhe dado, disse ter recebido muitos viajantes da igreja e usado demais a pobre armação de metal que sustentava um leve e fino colchão de espuma densa. Como travesseiro Ricardo enchera uma de suas camisetas com restos de tecido de algumas batas e roupas de doação que se encontravam na igreja quando ele ali chegou, não era como seu travesseiro que levava em todas as viagens, mas, o travesseiro era seu menor problema no quesito sono tranqüilo, nem demônios e abominações lhe atrapalhavam o sono, não mais, o problema era Bianca, que dormia a menos de vinte metros dele, na cama de Gustavo.

Três dias após a partida de Julio, Ricardo estava limpando uns dos fuzis e sentiu alguém a suas costas, era Bianca.

- Não consegui te agradecer formalmente por ter me salvado, mas também entendi o que você me disse naquele dia, não sei o que posso ter feito para que preferisse me ver como uma dessas coisas – ela se sentou – tanta coisa aconteceu comigo desde que estávamos juntos que nem sei mais qual dos dois deu por acabado nosso namoro, não sei se brigamos ou se terminamos numa boa, só sei que nada mais foi como naqueles três anos em que fomos um casal.

- Não há necessidade para isso Bianca, passou, se você não se lembra o que aconteceu, não serei eu a te lembrar, eu mesmo tenho tentado esquecer isso há tempos, sem sucesso.

- Em todo caso – ela se aproximou e beijou o rosto de Ricardo – obrigado por ter me trazido pra cá, e não ter feito o que queria ter feito.

- Eu não fiz pois a situação se apresentou adversa as minhas expectativas, mas teria feito se você fosse uma dessas coisas.

- Eu sei que sim, e eu lhe seria grata da mesma maneira.

Ela se levantou e foi para perto das mulheres que enchiam os pentes das armas.

Ricardo levantou a cabeça e pegou Gustavo o encarando, algo sombrio passou pelos seus olhos, algo que Ricardo nunca tinha visto direcionado a ele. O homem forte e atlético que namorava sua ex sentia-se ameaçado, Ricardo não pode segurar um risinho no canto dos lábios.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 8 - Imitation Of Life

Julio se distanciou da igreja o mais rápido que pôde, suas forças foram se recuperando a medida que se afastava e sua mente ficou mais clara, começou a perceber as aberrações mas não teve medo, nada nele ou nelas era muito diferente e elas o tomavam como mais um. Esta “visão privilegiada” também o fez não passar pela praça do lago, algo lá fazia suas entranhas arderem como que feitas de pura lava, não gostaria de chegar mais perto que um quarteirão de lá.

Sentira várias pessoas vivas através das paredes dos prédios, sabia que estava sendo vigiado por pelo menos três atiradores e que seu dom telepático fora de grande ajuda para não levar um tiro. Fora isso não sabia o que fazer, não sentia fome, sono, cansaço, nada. Sua humanidade não seria testada mais, seu corpo ou a alma que se recusava a deixá-lo era auto-suficiente.

As noites eram piores, a escuridão que se abatia em alguns pontos da cidade era a mais pura treva, ouvia ruídos, grunhidos, gritos desumanos, e alguns últimos gritos dos que ainda eram humanos, vultos rápidos e ofegantes passavam ao seu lado e sentia todo tipo de cheiro, suor, sangue, fezes, urina, pêlos, pólvora e mais sangue. Era como ser uma daquelas câmeras amadoras que captam a tragédia de dentro de seu núcleo, a que filma o atentado suicida a poucos metros ou que flagra a rebelião de uma janela prestes a ser estilhaçada por granadas, não era confortante ver tudo isso de perto, mas sabia que era bem melhor do que partilhar da visão do outro lado, a visão das vitimas.

Todo ser vivo morre sozinho, não há nada mais certo que a morte e nada mais desesperador do que a certeza da solidão na hora da sua chegada. O que fizemos, não fizemos, pensamos ou não pensamos acaba, resta só a memória na mente daqueles que ficam vivos. O fim só é o fim para os que não acreditam em nada além da morte, cada um dos que acredita no paraíso enfrenta seu próprio julgamento e vai para o céu ou inferno das suas crenças.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 7 - Unforgiven II

“Essa não é uma história de terror...

... Muito menos um sonho...

Não pode ser já que estou vivo, contra minha vontade, e sei o que acontece comigo, ao fechar meus olhos e abri-los novamente é a mesma imagem embaçada a minha frente, os óculos escuros que uso não interferem em nada a minha visão. Não tenho olhos para enxergar e eles são apenas para o conforto de quem me olha de frente, enxergo com algo mais sensorial que físico, enxergo com o tal olho da mente que muitos veneram.

Minha dor me corrói como ácido e queima todo o interior do meu corpo, meus pulsos não param de pingar sangue, e fico imaginando até quando terei sangue para isso...

Neste momento em qualquer sonho ou pesadelo as pessoas acordam, caem em um precipício e se vêem assustadas em suas camas, sãs e salvas. Nos filmes há o recurso do ultimo segundo, quando tudo aprece perdido alguém aparece e te salva, isso claro se você for o protagonista, mas eu nunca fui nem o figurante, se alguma vez tivesse sido algo do tipo com certeza não teria tentado me matar...

É por isso que as pessoas se matam, porque ninguém no mundo sentirá sua falta, ninguém tentará impedi-las, elas estão sozinhas, sozinhas e sem nada pra fazer em vida, a morte tem outro rosto quando a gente se encontra nesta situação.”

Julio se levantou e com grande dificuldade abriu a porta, todos olharam em sua direção, estavam cochichando e Julio sabia o assunto, claro que sabia, agora sabia de tudo.

- Padre – disse olhando o velho homem que o conhecia tão bem – não vejo beneficio pra ninguém em eu ficar aqui, vou embora, não quero incomodar nem gerar desconforto, além disso, a dor está insuportável, agora pouco estava delirando, estarei seguro lá fora, mais do que vocês aqui dentro comigo.

Ricardo assistiu Julio saindo da Igreja, o padre ficou arrasado.

- E lá se vai outra alma que não pude salvar.

Ricardo interveio.

- Padre, acho que gostaria de saber que não fiz o que havia me disposto a fazer, por fim, alguma coisa aqui dentro ainda vive, algo que achei ter morrido há algum tempo.

- Eu sei filho, eu havia notado isso antes mesmo de você. Mas o trabalho do sacerdote é salvar a todos, e existe alguma razão para aquele garoto estar vivo ainda, por mais que os tempos sejam esses, uma pessoa na situação dele pode fazer toda a diferença na hora do juízo.