Pesquisar este blog

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Paraíso Perdido - Parte II - As Crônicas dos Mortos

Logo que as coisas começaram a dar errado, Helena soube o que precisava fazer. No cenário caótico que se desenvolveu naquele final de outono, suas habilidades caíram como uma luva, suas posses também.

Quando Helena nasceu não havia a maravilha do ultrassom, seu pai estava crente que teria um varão, o quarto do novo bebê era azul, vários carrinhos e brinquedinhos de menino compunham o cenário. Mas nasceu Helena, incontestavelmente uma menina, e a beleza da pequena fez o pai se desmanchar e em menos de 1 hora mudar todo o quarto, exceto por um brinquedo, o móbile de carrinhos acalmava a menina. Conforme ela ia crescendo o pai percebia a mesma seriedade e destreza que possuíra na infância e quando a menina completou dez anos ele lhe deu uma espingarda de chumbinho e Helena começou a praticar. Aos vinte anos foi campeã sul-americana de tiro e se preparava para as olimpíadas que aconteceriam no ano em que o mundo mudou.

Helena cresceu envolta em armas e munição, a família era dona de uma loja/clube de tiro e sua casa vivia abarrotada de armas desmontadas e cápsulas, o apartamento que dividia somente com o pai desde que a mãe morrera no ano anterior possuía um cômodo exclusivo para o arsenal.

Na manhã do dia vinte de maio, seu pai saiu para comprar pão, e não voltou. Não voltaram também o Sr. Afonso do 312, a D. Antônia do 145, Rafaela, que saíra para trabalhar, residente no apartamento vizinho a Helena, o 323. Outros tantos não foram mais vistos, alguns deles sim, mas só por Helena, por poucos segundos, o suficiente para que fossem obliterados completamente. A idéia de escrever as memórias daqueles que partiram veio da vontade de contar as outras pessoas que Rafaela era uma moça gentil, séria e honesta, já que dado seu desaparecimento, poucas pessoas se lembravam da mulher que morava no condomínio há pelo menos cinco anos. Assim surgiam as crônicas dos mortos, título dado por Helena ao pequeno caderno de anotações que usava para registrar e prestar uma última homenagem àquelas pessoas que não voltaram.

Nenhum comentário: