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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Paraíso Perdido - Capítulo 1 - Snuff - Parte II

Agora viria a subida, o que atrasaria um pouco seu caminho até o bairro onde Bianca morava, “e provavelmente não more mais, não no sentido literal da palavra” disse a voz esganiçada e irritante em sua cabeça. O rio estava lotado de corpos e alguns deles ainda se moviam, viu carros também, homens, mulheres, velhos, viu um urso de pelúcia, que deixara de ser uma das prioridades de sua antiga dona, já que ela parecia estar se divertindo boiando sobre um homem gordo, há poucos metros dali, comendo suas entranhas.

O caminho com certeza ficou mais difícil, mais trabalhoso, estava com uma condição física boa, as duas espadas quase não faziam peso, mas o sol estava forte, forte como no campo, o que fez Ricardo imaginar que a pouca quantidade de pessoas vivas, nenhum carro funcionando, ou fábrica poluindo o ar haviam nestes três dias, dado uma trégua ao céu, era o efeito parecido dos feriadões, quando todos iam até a praia e o clima melhorava na cidade onde “sempre chovia”.

Eliminou mais três zumbis até a metade do caminho que ainda teria de percorrer, um do tipo “Gordão”, que eram mais lentos e desajeitados em sua pós-vida e dois do tipo “standard” que era como chamava os saídos do velho clipe Thriller, sem alguma parte do corpo ou com sérios ferimentos em todo ele, estes foram atraídos pelo grito final do “Gordão” algo que lembrou um motor de barco submerso em água. Serviço rápido, embora fossem dois e estivessem juntos como namorados em um passeio de tarde, se fossem três com certeza estaria encrencado, sua roupa não tinha nada de especial e só agora se dera conta do erro crasso, na empolgação de sair à caça, esquecera-se de se proteger, não possuía Green herbs nem First Aid Sprays na vida real .

“Você é um doido de um Nerd, Ricardo, um doido varrido, é inteligente, muito, mas um doido varrido de um porra de um Nerd isso que é”

Não era tão repreensivo pensar assim de si mesmo, quando se dialoga diariamente com as idéias dentro da cabeça, acaba-se criando uma segunda personalidade, em alguns casos é essa personalidade que nos salva das enrascadas, pois observando a distância o que ocorre ela tem o dom de dizer exatamente o que não havíamos enxergado, e claro que pode fazer isso, todo mundo vê melhor o show sentado no camarote.

O resto do caminho foi tranqüilo, ainda estava meio longe dos bairros, o trajeto já fora uma avenida bem movimentada, cercada de fábricas, oficinas e estacionamentos, numa destas oficinas, Ricardo encontrou um macacão grosso e em um estado razoável, sujou um pouco das mangas com graxa e as pernas também, ficaria insuportavelmente quente, mas poderia ajudá-lo a esquivar (ou escorregar) por entre várias mãos que com certeza encontraria entrando novamente nos bairros.

Seguiu mais um tempo pela avenida, mas por fim não teve mais como evitar adentrar o subúrbio, alongara sua caminhada por quase dois quilômetros do destino, seguindo a avenida até o ponto em que virando reto a esquerda chegaria a casa de Bianca, o que era apenas um sonho ainda, enfrentaria cerca de vinte quarteirões e todo o tipo de abortos da natureza que haveria ali, mas antes teve a idéia de passar pela igreja, o que sem duvida fora uma ótima idéia, e não fora de sua consciência dominante, podem dar graças a isso.

Desta vez foram cerca de quinze criaturas, logo que entrou no bairro, três de uma vez as outras vinham como vêm os capangas de filmes de artes marciais, Ricardo não deixou de achar tudo isso muito engraçado, as bestas tinham medo, reconheciam que quando a espada separava o corpo das cabeças aquele era o fim, e ficavam receosas. Placar 15 a 0, ou 16 a 0, tanto faz, Ricardo ainda estava invicto, no ultimo momento a graxa da manga fez seu trabalho quando uma velha, com os olhos pendendo da metade do rosto que parecia ter sido atacado por um urso, agarrou seu braço, um puxão fora o suficiente, uma gingada com a katana, uma volta e o olho da velha senhora chegou ao chão,acompanhado pela cabeça a qual ainda estava pendurado.

Vitória!

Achou sensato usar um tipo de máscara que pegara na oficina, logo após um pouco do sangue da velha ter espirrado em seu macacão, não queira botar á prova a contaminação não inoculada pela mordida. Chegando perto da igreja soube que fizera uma escolha sensata em passar por ali, havia alguns zumbis circulando, do tipo standard, seriam rápidos, mas não o bastante para agarrá-lo se corresse, para onde? Ele se perguntava, para onde? Para dentro da igreja sua mula, olhe.

Ele olhou e viu.

Nenhuma das aberrações colocava os pés para dentro do terreno da igreja, nenhumazinha sequer, Ricardo sorriu nervoso, afinal não era nenhuma infecção viral, T-Vírus, G-Vírus, ou qualquer outro vírus que enfrentavam, era o maldito juízo final, isso era. Aquelas bestas não entravam na igreja porque alguma coisa ali as expulsava, alguma coisa que tinha um nome e da qual já ouvira bastante em sua infância, nos catecismos e missas.

Correu como um desesperado se esquivou de todos os zumbis, e no ultimo momento, de relance viu um vulto negro pulando (ou voando) a seu encontro, empunhou as duas katanas e fechou os olhos enquanto pulava de costas para o chão defronte a igreja, cortou um X no ar com as espadas afiadas. Ao sentir as costas no chão abriu os olhos, a espada que ainda não usara, a “sua katana” já que não havia outra igual em todo mundo (isso o anúncio garantia), estava suja de sangue, vermelho escuro, quase vinho, sangue parado. E pouco antes do portão da igreja, jazia um hibrido de cão e homem, pequeno, menor do que ele imaginava serem estas criaturas, e com o olhar mais aguçado pode ver que não era o que pensava ser, por Deus, ainda bem que não, ele já tinha problemas demais com zumbis para ter de adicionar lobisomens a sua enciclopédia do bizarro.

- Ei, você, aí embaixo de máscara, entre, eles não podem passar do portão, mas só Deus sabe o que os outros podem fazer. – a voz era familiar, fazia seu coração saltar, naquele momento ele teve duas certezas, fora realmente uma ótima idéia passar por ali, e que não gostaria de descobrir o que seriam “os outros”.

A porta estava destrancada, certamente para facilitar a entrada dos que podiam pisar ali, a igreja estava vazia e não se ouvia muito mais que o barulho dos passos ecoando na imensidão da nave, nunca havia entrado ali, não era como a matriz para onde voltaria assim que terminasse seus negócios, mas mesmo assim era grande. Tirou a mascara e se virou para ver a mulher que lhe chamara pra dentro, virou-se no momento em que ela o observava, e os seus olhos reconheceram os que os reconheciam de volta.

Ela veio correndo e a despeito das duas espadas pulou agarrando o pescoço de Ricardo e segurando fortemente.

- Não acredito, não acredito meu Deus do céu, devo estar sonhando, não é possível.

Segurou o rosto de Ricardo entre as mãos e quase lhe deu um beijo, ele pode ver a idéia em seus olhos, mas viu logo em seguida a compreensão da situação que precedera aquele momento. Não se viam há pelo menos dois anos e neste tempo ela ficara normal, não era mais aquela pelo qual ele daria o mundo, seu cabelo estava mudado, escoado ao invés do levemente encaracolado de antes, seu rosto estava magro e seus olhos denunciavam tristeza, não porque ele queria ver a tristeza ali, mas porque era impossível não enxergar a sombra de dias e noites sem sentido, ele mesmo tivera a sua cota de desespero diário desde que olhara pela ultima vez aqueles mesmos olhos.

- Não que eu esteja me achando demais – ela disse – mas você está aqui pra me salvar não está? Não é apenas coincidência você ter atravessado a cidade e estar aqui por acaso não é?

Ricardo limpou as espadas e as guardou, permaneceu com o olhar preso nos olhos castanho-escuros de Bianca:

- Não é mesmo coincidência eu estar aqui, mas nem no fundo do meu pensamento passou alguma vez a idéia de te salvar, não esperava te encontrar viva, não no sentido verdadeiro da palavra, e caso a situação fosse essa, eu teria o que fazer, essa era a idéia.

Por enquanto deixemos os dois aí, neste santuário, Bianca entenderá o que Ricardo quis dizer, mas não de imediato, ela nunca foi muito boa em compreender as palavras, principalmente quando saídas da boca do homem que sempre disse que a amava mais que tudo.

É para Julio que mudamos nosso foco agora, o homem desorientado que Ricardo viu em seu caminho, e que não era nada mais que uma pobre alma, presa em seu corpo pelo pecado imperdoável de tentar tirar sua própria vida.

2 comentários:

Tata disse...

Obrigada pela dica, já sei onde irei morar para sempre e fazer minha reserva de comida caso os zumbis assumam a Terra: igreja!

Está bom Luiz, só poderia dar menos adjetivos exagerados aos personagens. Entende? Sei lá, é coisa minha. Mas a nao ser que isso seja próprio do caráter do personagem.

Até! o/

Samadi disse...

Ah, referências que eu adoro!
que mais? que mais???