Era uma menina comum, sentada, no parapeito da ponte, o rio bem abaixo apenas lhe mostrava um reflexo borrado de sua imagem, atrapalhado, como estavam seus pensamentos naquela tarde, a água, agitada pela passagem entre os pilares, ondulavam sua imagem, um navio apitou ao longe, perto do porto, pelas bandas da doca três.
Em algum lugar ali perto ouviu musica clássica, achava que era Mozart, pelo menos parecia o que a Avó ouvia na vitrola, não gostava daquela música, seu reflexo, que se tornava cada vez menos nítido - dada a luz natural que acabava, como geralmente ela faz ao fim do dia - lhe dizia que era hora de ir embora, mas embora para onde?. Para que lugar uma menina, moça, não, mulher, afinal, para que lugar uma mulher, pois era assim que sua mãe havia lhe chamado naquela manhã, para que lugar iria? E porque não mais para sua casa, por que ela não podia colocar mais os pés em casa, por um sangramento? Por uma malcriação? Pela loucura da mãe que chegara a um ponto de um simples machucado, afinal era isso que devia ser não? Um machucado, uma ferida, vivia ralando as pernas na mangueira brincando com seus irmão mais novos, ou esfolando o joelho na cerca de madeira velha do quintal do fundo. Tinha a casa da avó, sempre tinha a casa da avó, quando era malcriada, quando queria ir para a escola, quando dizia que seria professora, cantora, atriz, veterinária, médica, advogada, engenheira, caçadora, arquiteta, desenhista.
A mãe nunca entendia, dizia que menina tem que ficar em casa, arrumar a casa e saber ler só receita, e que homem era desfrute. A menina pensava no que poderia querer com um homem, todos fedidos, sem educação e bêbados, nenhum digno de um “bom dia” ou “boa tarde” ou “boa noite”, mas a mãe sabia de algo que ela não sabia, achava, afinal ficava horas trancada no quarto com o seu João da padaria, o Manoel da quitanda, o Tobias da sapataria, o alfaiate seu José e até o Geraldo, que nem profissão tinha e era o mais fedido de todos, não entendia o que tanto conversavam.
O sol se deitava no horizonte e o reflexo no rio desaparecera, ela começou a ouvir as risadas altas dos fedorentos do cais, era bom andar. Desceu do parapeito e seguiu pela rua abaixo, em direção a casa da avó. Algumas mulheres com roupas curtas e maquiagem no rosto estavam lá, uma em cada esquina, o que faziam? De certo esperavam o bonde, ou seus maridos saírem do serviço, se bem que com aquelas roupas, que marido teriam? Que homem deixaria sua mulher sair daquele jeito, e circular por um lugar onde só existiam outros porcos, realmente não entendia,mas quem um dia vai entender?
Mozart foi substituído por Beethoven, esse ela tinha certeza, e gostava, ia para a casa da Avó mesmo, pelo menos lá sempre seria ouvida, e sempre seria uma criança.
texto meio nada a ver, mas como disse o King "Eu não sou a água, só o cano que a conduz"
Luiz
The Real Folk Blues - Cowboy Bebop
a imagem é da Divina Comédia do meu camarada Dante (aliás se tiver um filho um dia tá aí um nome danado de legal pra por nele) o autor da obra é Gustave Doré que fez essa maravilha em Litografia, ele também ilustrou uma edição do "Corvo" do Poe, muito boa por sinal, além de ter ilustrado uma edição da Bíblia e tudo o mais, o link fala mais.....
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